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sábado, 14 de outubro de 2017

O PODER DA MÚSICA - Parte I

Paus de chuva
Desde o início dos tempos, a Música tem assumido papel de destaque em nossa civilização. Desde aquele troglodita que, sobressaindo-se na arte de se comunicar com pessoas, coisas e deuses por meio de gritos, ruídos e batidas no peito, logo foi designado pelo chefe para animar a tribo, declarar guerra, comunicar-se à distância, expulsar demônios e mesmo mudar o tempo - até hoje, entre nossos indígenas, existe um longo chocalho de nome pau de chuva. Fora a tradição que sobrevive em nossos dias: encomendar o corpo dos defuntos.
Serra do Montejunto
O Instituto Português do Patrimônio Histórico e Antropológico (IPPFIA) divulgou resultados de escavações feitas no final de 1994 na Serra do Montejunto, próximo a Lisboa. Entre adereços, objetos e ossadas de mais de cem trogloditas, foi encontrado um fêmur de veado com uma escala de quatro orifícios. É mais do que comprovada a existência de instrumentos musicais rudimentares entre os homens pré-históricos, que como se vê não buscavam apenas a própria sobrevivência. (Divertida é a anedota sobre o ancestral encontrado por supostos arqueólogos lusitanos, em algum sítio pré-histórico. Um esqueleto descoberto dentro de uma espessa parede de construção milenar trazia uma placa no peito: "Guinness Livro dos Recordes - campeão mundial de esconde-esconde").
Entre os sumérios, os músicos tinham atribuições funerárias, talvez razão pela qual nas gravuras aparecem com os semblantes tristes. Dez sécu­los antes de Cristo, David acalmava Saul com sua lira e mantinha um coral de centenas de vozes para seus salmos, além de orquestras que contavam com até dezenas de trombetas, e nomeava sacerdotes milhares de cantores e centenas de mestres. Os assírios, setecentos anos antes de Cristo, já conheciam a kithara, instrumento de cordas com jeito de lira.
Kithara

Antiga Flauta de Pã
Os gregos - fora as contribuições do matemático Pitágoras, que organizou boa parte do sistema em que baseia a música ocidental - já sabiam que o deus Apoio, além de ideal de beleza, era protetor da Música. E que Pã tocava uma flauta de sons misteriosos com a qual iria conquistar o amor da ninfa Syrinx. No início do século 20, o compositor Claude Debussy criou belíssima obra que leva o nome da ninfa, talvez a peça mais famosa das escritas para a flauta transversal solo.
Caronte em seu barco: a fuga do Inferno
Com sua lira, Orfeu narcotizou Caronte, para que o conduzisse em seu barco ao inferno, de onde resgataria sua amada Eurídice. A Odisséia e a Ilíada de Homero eram can­tadas, sendo que na primeira delas Ulisses foi seduzido pelo canto das sereias, vozes sedutores que quase o levaram ao naufrágio. Entre os romanos, a Música também tinha papel de destaque. Exércitos usavam fanfarras para animar seus desfiles. E Nero, que era o vencedor hors-­concours de suas maratonas de canto, dedilhava uma Lira enquanto via Roma pegar fogo.
Barbarella (Jane Fonda) e a tortura de Duran
Mais recente, Jules Verne já fazia seu Capitão Nemo, como fosse um Nero moderno, inebriar-se entre prelúdios e fugas no órgão de tubos de seu submarino, preparando-se para a grande explosão. O vilão intergaláctico Duran delirava com o som hipnotizante de seu órgão de tubos em cujo interior havia um mecanismo erótico, no qual prendera a estonteante heroína espacial Barbarella, utilizando o instrumento como máquina de prazer e tortura - iniciando com afagos prazerosos em ritmos suaves, para afinal punir sua prisioneira com um fortíssimo, para conduzi-la à morte. Por prazer.
Curioso é que em 1475, em Florença, governantes já faziam uso político da arte musical. Músicos municipais eram obrigados a tocar para o povo de uma sacada da Prefeitura todos os sábados à noite em loas ao governo, louvando-o por ter ministra­do justiça. Pois um quarto de século antes de Pedro Álvares Cabral aportar, bem antes de Getúlio Vargas e do rádio, aqui já havia sido inventada uma versão florentina da Voz do Brasil ou da Semana do Presidente!
Encantador de serpente
Nas ruas de Nova Delhi, na Índia, cobras venenosas  domesticadas dançam sinuosas ao som de flautistas de turbante. E quem não se lembra de ter lido, na infância, a fábula do século XV O Flautista de Hamelin, que conduziu os ratos da cidade para longe, atraídos pelo seu sopro mágico, até se afogarem em um rio? Sapos são exímios cantores. O canto do acasalamento desse anuros é feito com a boca fechada, boca chiusa, como pediu Villa-­Lobos na Bachianas 5, para soprano e violoncelos. Os machos cantam para atrair as fêmeas, e emitem um som grave de sua barriga para evitar outros machos que por engano possam abraçá-los por trás. Já a canção do medo é executada com a boca bem aberta, e o som que usam para demarcar seu espaço é percussivo, usado para bem delimitar seu território.

Il Libro del Cartegiano
No século 15 Jean Tinctoris afirmava que a Música servia para louvar a Deus, pôr o diabo a cor­rer, salvar os doentes e provocar paixões. Em 1528 Baldessar Castiglione, em II Libro del Cortegiano, assegurou: "não existe pronta cura e remédio para mentes fracas mais completo e valioso do que a Música, também útil para agradar as mulheres, cujos corações ternos e doces logo são penetrados pela melodia e alimentados com suavidade”. Não admira que antigamente, como hoje, elas tenham certa ‘queda’ por músicos, e tenham a arte deles como “o mais aprazível alimento do espírito". Eurípedes dizia que cantos mágicos podem fazer os doentes de amor voltarem a si. No século 18, Robert Burton afirmou que a Música é remédio para as mentes tristes e antídoto contra a melancolia. E há muito mais para contar, como veremos no próximo capítulo. 

sábado, 7 de outubro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA . Pai, amigo e herói - Parte II

Com alguns favoritos à mão
(Termino o texto a partir de onde havia parado na Parte I) 

Eventuais falhas em meus livros seriam corrigidas se fosse possível, mas tudo foi escrito com cinzel sobre pedra. Voltando ao pai, aquele estado pós-livro não fazia bem ao velho Autran. Fases deprimidas, brechas na intensa volúpia literária, a doença de escriba que o fazia escrever cartas e artigos aos borbotões, produção impressionante para quem usava uma máquina. Pouco simpático ao computador, cada vez que começava a digitar tinha de ter rápidas aulas para reaprender - menos pela modernidade do que por certo ‘tremor essencial’ nas mãos, doença de quem escreve, explicava repetindo o médico. 
Lev Tolstoi
Perguntei-lhe se o tempo consumido por Lev Tolstoi para escrever Guerra e Paz não poderia ter-lhe rendido muito mais livros se na época houvesse computadores. Ele foi categórico, nunca! Guerra e Paz é o que é porque foi escrito a bico de pena! Entendi que era, em tempos modernos, o que ele fazia na velha máquina, e só não escrevia com caneta porque tinha uma péssima caligrafia, que herdei dele. Tinha de pensar antes de cada tecla, cada sílaba, cada palavra. Aqueles corretivos maravilhosos não existiam ou não se dera bem com eles, acho que preferia pensar a conta-gotas enquanto escrevia. Tolstoi fora meticuloso como um relojoeiro, o bico de pena molhado com parcimônia na tinta, letras desenhadas para o texto planejado a cada palavra.
Servidor público da Justiça, meu pai viu abater-lhe a maldita aposentadoria compulsória, que viria aos poucos arrefecer sua febre criativa. Com o passar dos anos foi ficando ainda mais introvertido. O caipira do sul de Minas ainda conservava aquele humor característico e frases lhe brotavam da cabeça, forma de se comunicar com o mundo exterior, a família e os já menos frequentes amigos. Sair da vida de trabalho cotidiano foi-lhe fechando o casulo, e ele parecia se conformar com aquele fado.
Cabana de Henry Thoreau  em Walden Pond: reconstituição
Continuou escrevendo, mas já havia bons anos que evitava noites de autógrafos, seja por necessidade de isolamento, timidez ou pela dificuldade de tornar seus garranchos dedicatórias legíveis.  Virou, assim, uma espécie de Henry Thoreau de Botafogo, fechado em sua cabana imaginária, um escritório cercado de livros por todos os lados, na falta da água de um lago como o do norte-americano. De seu refúgio, saía quase que apenas para comer ou dormir, o que só conseguia à custa de medicamentos. 
Cervantes entre seus livros, sonhos e insônia
Os médicos pareciam seus reféns, as consultas eram economicamente narradas por minha mãe, companheira de vida, braço direito e às vezes também esquerdo dele. Era ela quem o acompanhava aos consultórios e escondia trancados os comprimidos, dosando-os conforme a prescrição e não segundo a cabeça já tanto quanto confusa de meu pai. Nessa fase, passou a ser usual cochilar na cadeira de balanço com um livro na mão, cena que fazia par com a gravura pendurada na parede ao seu lado, em que se via Don Quixote entre muitos livros e Cervantes, esparramado sob o dístico “embebeu-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Era o retrato daquela fase paterna.
Vem-me agora à cabeça um episódio de passado bem distante, lembro-me com detalhes e conto para concluir esse breve depoimento. Entreguei ao meu pai um dia, na hora do almoço, alguns títulos de livros pedidos pelo colégio. Ao ver um deles, arregalou os olhos, limpou a boca com o guardanapo, e, sem dizer nada, abriu a porta e desceu. Soube depois que tinha ido ao meu colégio, e exigiu que retirassem aquela publicação, seu filho não iria ler aquilo e ponto final.
A Monte Santo de antigamente
Se eu o vi furioso raras vezes, uma delas foi nesse dia, e ensinou-me a evitar esses novos best-sellers de ocasião. Dizia que escrever porcaria para vender ele também sabia, bastava juntar suspense, traição, escrita de gibi e uma pitada de sacanagem. Mas recusava-se a fazer isso abrindo mão da sua literatura. Best-sellers no Brasil são reles 20 mil exemplares vendidos, se passar muito além comece a desconfiar, alertou-me. Literatura em nosso país é útil para poucos, infelizmente. Para mim, que fui criado em Monte Santo, está muito bom, falava.
Na vida, na escrita, na música, aprendi que temos de fazer o que muito bem definiu meu pai na sua carpintaria literária o crítico Humberto Werneck: um trabalho de formiguinha. Werneck publicou em jornal artigo sobre um saudável bate-boca de amigos entre o Autran Dourado e o Fernando Sabino. Meu pai sempre instigou Sabino a escrever algo de maior fôlego, completo, deveria esquecer um pouco as breves crônicas e partir para o que, em música, chamamos ‘grande forma’ - no caso da literatura, o romance. Sabino já havia feito sucesso com seu O Encontro Marcado (1956), mas, passaram-se mais de 20 anos e ele continuou amarrado às suas divertidas crônicas. Provocado, Sabino vaticinou que o romance havia morrido. O velho Autran saiu-se com essa, dando aquela risada de sempre: engraçado, o Fernando, desaprendeu a nadar e quer esvaziar a piscina!
Tanto já foi escrito sobre a obra de meu pai que eu não poderia entrar nessa seara já tão desbravada sem ser um especialista estudado no ramo. Por isso, preferi mostrar o escritor como o homem e pai Autran Dourado, com suas imperfeições e manias, seu jeito tão mineiro e caipira de ser e viver, sem desfrutar da fama que a soberba, a vaidade e a busca por exposição poderiam tê-lo proporcionado, se dado fosse à exposição pública e às colunas sociais. Autran Dourado foi apenas uma coisa a vida inteira: um escritor, e isso bastou para justifica-la como ideal. O resto foi amor, família e ganha-pão. 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AOS MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA - PARTE II

(Continuação da Parte I, disponível no link à direita)Ideias se desenvolvendo, fui tomado de uma outra intenção, um depoimento sobre a condição do músico: dificuldade de estudar, insegurança profissional, precária organização das instituições e o descaso geral, sem esquecer a visão preconceituosa. Chega a surpreender que até hoje ainda existam música popular de qualidade e orquestras sinfônicas no país, fora a enorme produção de mau gosto imposta goela abaixo pelas mecas televisivas.
Um pouco de brincadeira, curiosidade, reflexão e algo de autobiografia, se além de diversão introduzir elementos musicais e ajudar o leitor a ter um quadro mais claro sobre a profissão do músico, estarei satisfeito. Preocupei-me com a reação de pessoas ou seus familiares, mas o estigma do exótico está tão incorporado à trajetória do músico que em geral o artista se diverte com o folclore criado sobre si mesmo. Qual filho não riu das maluquices do pai músico? E as estranhezas de seu vizinho compositor? Que artista pode autoproclamar-se absolutamente sério? (Em inglês, francês e alemão tocar é to play, jouer e spiel, respectivamente, que também significam brincar).
Professor de música, era natural que eu começasse a esboçar certa preocupação didática. Se for possível distrair o leitor que possui algum conhecimento musical, por que não aproveitar para enriquecê-lo com algumas pitadas de expressões técnicas ou fatos relevantes? Entre a história e a estória, concluí que a própria bibliografia já nos havia legado um ótimo repertório de curiosidades, até mesmo nos livros e compêndios ditos “sérios” sobre História da Música, onde o anedótico se veste com o charme do pitoresco. Procurei ser didático citando nomes, sempre com a preocupação de informar sobre datas, locais, obras, expressões técnicas e mesmo certo tipo de gíria profissional.
Revisitei livros e anotações em busca de informações já incorporadas ao folclore do músico, despertando minha memória oculta. Estórias que havia lido, vivido ou ouvido começaram a pipocar em minha cabeça. Usava um minigravador durante as longas horas que passava diariamente no trânsito congestionado de São Paulo.

Adoniran e o Trem das Onze
Artigos da imprensa, bate-papos, páginas de livros e anedotas, tudo se transformou em fonte. Por isso, longe deste texto o chamado rigor científico, são meras reflexões! (O apresentador de Rádio e TV Flávio Cavalcanti deliciava-se em encontrar erros nas letras das músicas. Quebrou o disco do Adoniran Barbosa (1910-1982) porque foi checar aquele famoso "se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã" e, ao vivo, ligou e descobriu que havia mais duas viagens, a próxima às onze e meia. O desastrado rigor científico de Cavalcanti quebrou-lhe o disco ao vivo e se esqueceu de que o trem das onze poderia ser uma mentirinha do filho mimado para despedir-se da amada e voltar para casa).
Mesmo em vista da informalidade do texto, convém lembrar fontes como as cartas pessoais de grandes compositores, reproduzidas em livros como Appassionata, de Kurt Pahlen. No Conselho Municipal de Cultura de São Paulo conheci o operófilo Edson Lima, que me emprestou um livro raro, Risos e Lágrimas no Mundo da Música, de Gumercindo Saraiva, algo como as Curiosidades publicadas nos anos 1950 por Letícia Pagano. Mais lágrimas do que risos, com jeito de almanaque, Saraiva trouxe algumas estórias que pude confirmar, inspirando o bom humor do texto.
O amigo Aylton Escobar tinha um curso de pós de História da Regência, na USP,essencial para o texto sobre maestros. Músico instigante, de cultura e inteligência fora do comum, Escobar foi peça decisiva para a compreensão do regente e tudo o que é preciso para ser um deles. Fora, é claro, saber reger.
Mário de Andrade
Gostaria de ter usado a linguagem irreverente do Mário de Andrade. Infelizmente, faltou-me o talento do mestre, mas espero, inspirado nele, ter criado uma leitura agradável. Mário não freava aqueles pensamentos que às vezes nos assaltam quando lemos sobre a história chamada ‘séria’. Deixei escapar expressões como "coisa de maluco". (O filósofo e musicólogo alemão Theodor Adorno escreve "ridículo" e "o som eunucóide da jazz band com naturalidade).
Sid Vicious
Minhas desculpas aos eruditos encasacados, cujos cabelos poderão ficar arrepiados diante da simples menção a nomes como Sid Vicious, do Sex Pistols, ou Kurt Kobain, do Nirvana, entre outros. Vicious, como músico, foi muito fraco, mas é personagem muito importante para se compreender o comportamento de um artista no chamado fundo do poço.  

As referências desde já serão abandonadas definitivamente, A matéria-prima sobre a qual se fundamenta este texto reside basicamente em minha memória, na vida de músico e professor. Informações foram colhidas nas mais diversas fontes. Fatos do passado podem mesclar-se a outros recentes, e tome situações, causos e anedotas ouvidos em bate-papos ao longo de muitos anos nessa divertida estrada - como os personagens circenses do filme La Strada, de Felini - de músico. O mundo está em crise e o país à deriva, mas a música tem o condão de fazer mais suaves nossos pesadelos - assim como fez Wallace Hartley, do Titanic, que não parou a valsa enquanto o navio afundava.
Homenageio os colegas músicos, que se divertem mas amargam o dito “orquestra é como sítio, só tem duas alegrias: quando a gente entra e quando sai”. No fundo, a lida musical diverte, mas faz sofrer. Cantam em uníssono samba e fado: a gente vai levando, navegar é preciso.

[Terminada a segunda parte da introdução, em breve passarei ao texto propriamente dito - a parte mais divertida das estórias]

sábado, 16 de setembro de 2017

PARA MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA – PARTE I

O Aurélio acha que tudo deve ser história com agá, mas prefiro reforçar o caráter do texto com estória mesmo. Já o Houaiss identifica estória como “narrativa de cunho popular e tradicional.” (Os ingleses, corretamente, não abriram mão de story, que é bem diferente de history). Posso justificar essa escolha. A ideia de escrever este texto vinha sendo acalentada há tempos, e quase que partiu do título. Desde o início da minha carreira, seja nos conjuntos de Música Popular e orquestras, e mesmo durante os muitos anos de estudo, pude somar experiências, estórias e situações inusitadas, tão particulares do músico. Com o passar dos anos, passei a temer que essas informações pudessem se perder, pois amontoaram-se em minha memória e, por falta de espaço, muita coisa já estava sendo deletada (ah, esses neologismos de hoje).

Músicos senegaleses em bate-papo 
Conversar fiado sempre foi uma das atividades favoritas dos músicos, quando longe de seus instrumentos. O bate-papo nos bastidores, camarins ou esquinas, além de divertir servia também para saber de algum disco recente, o estilo de alguma estrela do jazz ou da regência, a performance de algum colega ou mesmo técnicas para execução de uma ou outra passagem musical. Esses assuntos, apesar de informais, com o passar do tempo acabam por se fundir, com naturalidade, no panelão da História (com agá) da Música, com seus aspectos mais insólitos e pitorescos.

Aproveitando essa interação entre formalidade e informalidade, aviso aos navegantes que grafo Música e Cultura com a inicial maiúscula ao invés de minúscula. Conforme o caso, prefiro música e cultura, assim mesmo, e por igual razão escrevo maestro ou Maestro, a depender do regente (essa última, por sua vez, é uma palavra que para mim implica em mero gerúndio, aquele que está regendo. Um Maestro é um Mestre).
PDQ Bach (fictício)
Para melhor esclarecer essas peculiaridades do texto, deve-se lembrar do inesgotável repertório de anedotas sobre a classe. Mesmo sabendo que boa parte foi extraída de casos reais, mas acabou inserida nesse verdadeiro folclore pelas mãos mágicas do tempo. Por isso neste texto qualquer semelhança entre a história e fatos ou pessoas verdadeiras na maioria das vezes não é mera coincidência.

O anedotárío sobre músicos é parte integrante do dia a dia dos profissionais, e cada orquestra tem seu piadista de plantão - como o violinista Rastelli, da Sinfônica de Campinas. Era no mínimo uma nova por dia (impossível conhecer tantas, devia inventar). Certo dia, durante um intervalo entre ensaios, no City Bar – então bar de média categoria e hoje point  e must em frente ao Centro de Convivência -, Rastelli, cercado por colegas junto ao balcão, disse: "Hoje vou contar uma de português". Do outro lado o antigo dono do bar, exclamou, irritado: "Pois não estás a ver que sou português?' Rapidamente, Rastelli retrucou: "Não tem problema, se não entenderes eu conto de novo".

O irreverente grande maestro e piadista Hans Von Büllow
Deixando de lado por enquanto o anedotárío, o conhecimento de fatos pitorescos da vida de instrumentistas, regentes e compositores é parte da vida do músico, costume que não vem de pouco tempo: talvez finque raízes em épocas tão remotas quanto as das manifestações artísticas mais primitivas (o grande Maestro Hans von Büllow costumava dizer: “No princípio era o ritmo").

Inicialmente, para este texto, passei a registrar as estórias de forma mais ou menos aleatória, do jeito que emergiam à lembrança, esperando que alguma hora eu pudesse concatená-las sem o risco de privá-las da naturalidade com que foram surgindo. Quando esses fatos, causos e anedotas começaram a se encadear, esboçaram-se tamanhas semelhanças entre eles que o texto passou a tomar corpo de forma natural, agrupando-os em frases, parágrafos e capítulos, como em uma composição musical: entretela de temas, variações, desenvolvimentos, recapitulações, seções e finalmente movimentos. As ideias foram se sucedendo, em improviso, tecendo aqui e ali verdadeiras cadências musicais.

Muito embora minhas reflexões tentem respeitar certa cronologia, torna-se necessário com frequência preterir o tempo em favor do sentido universal que empresto ao texto. Colaboram para quebrar a sequência histórica a interferência de fatos recentes nas descrições de acontecimentos do passado longínquo e vice-versa. Posso dizer que o verdadeiro Leitmotiv do livro é a personalidade ímpar dos músicos, nem tanto sua história ou sua obra.
Gossips - Rockwell 1944
Outra característica importante a ressaltar é o aspecto da transmissão oral (gosto de dizer: aural, de aura) de boa parte dessas informações. Muitos fatos e situações narrados - seja por simples lembrança ou complementados por pesquisa - surgiram do registro de relatos ouvidos e vividos, de uma forma ou de outra também passados adiante em corrente e gravados na memória de uma verdadeira teia de interlocutores.

Consciente de que interpretava fatos que pertencem tanto a vivências pessoais quanto ao patrimônio tombado da música universal, uma vez que o trabalho tomou corpo surgiu uma natural preocupação com os personagens que surgiam em cena. Situações passam a tomar um colorido especial, dando lugar à imaginação de quem as descreve - pois isso não é interpretar? Preocupava-me, entretanto, o fato de que as estórias narradas - sujeitas, é claro, a versões - traziam frequentemente nomes de pessoas vivas e situações reais. Explico: a natureza dos causos chega, às vezes, ao absurdo, e não raro desnuda situações francamente vexatórias, surrealistas ou até mesmo pornográficas. Essas últimas, por vício corporativista e preservando certo decoro da classe, tratarei de mascarar e deixarei de pormenorizar.

[Continua na próxima edição]