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sábado, 19 de maio de 2018

CEGUEIRA, OUVIDO MUSICAL...

E OUTROS SENTIDOS
Reli o Ensaio Sobre a Cegueira, do escritor português de Azinhaga José Saramago, ficção sobre uma epidemia que deixava sem visão os habitantes de uma cidade, em convulsão social (ora, pois pois, estás a saber que é a ótica do realismo socialista d’antanho, como convinha a um gajo comunista!) Passei a lembrar-me de fatos sobre cegos e a música. Lembro-me de muitos deles, e logo veio à cabeça o ano em que resolvi abrir as inscrições para deficientes visuais na Escola de Música do Teatro Municipal de São Paulo (EMM): nos testes, ficavam bem acima dos demais, raramente falhavam em uma questão auditiva. Sem um dos sentidos, ampliam-se outros, como a audição.
Jovem cego e autista se prepara para recital em Londres
O pianista Paulo Cego, meu colega de grupo na Gota d’Água (1975), do Chico Buarque e Paulo Pontes, tinha cegueira de nascença. Sendo rara ou impossível a leitura musical em braille, Paulo aprendia Bach de ouvido. Bastava alguém tocar a linha de cima de uma ‘Invenção’, por exemplo, e ele a gravava na cabeça. Depois, ouvia a pauta de baixo, memorizava-a, e voilà!, mão esquerda pronta! Ato contínuo, juntava as duas mãos passava a tocar ambas as vozes! Aprendia, linha por linha, até decorar a peça inteira, façanha inalcançável para nós. Logo, aprendeu o repertório inteiro, era hora de ‘atacar’ no espetáculo.
Bibi, em seu insuperável monólogo
Chegando ao teatro, alguém o guiava pelos labirintos internos, segurando-lhe o braço com a mão, tal fosse um guia. No final do 1º ato, havia um longo monólogo da Joana (Bibi Ferreira, uma Medéia moderna), coisa de 15 minutos (e se não era tudo isso, era o que sentíamos). Cena dramática, Joana-Medéia desabafava como só a Bibi sabia fazer, até matar-se e aos dois filhos. Durante os ensaios, saíamos antes do monólogo, pé ante pé, para emendarmos pausa e intervalo. Paulo punha a mão em meu ombro, e eu o guiava pela escada de madeira do nosso palco musical. Galgávamos bastidores, camarins, e, finalmente, a porta dos fundos. Mas no pré-ensaio geral, ai, os testes de iluminação! Descobrimos que Bibi ficaria sob um spot de luz - o chamado ‘canhão’ - focado apenas nela. O resto era um breu só.
Teatro Thereza Rachel
Pensamos: que diabo iríamos fazer naquela infinitude de tempo até o intervalo, sem podermos sair? Paulo, tateando e havendo memorizado o caminho, ouvia a reflexão e absorção das paredes, portas e passagens, e pediu que eu colocasse minha mão em seu ombro, trocando comigo o papel de guia. Logo estávamos livres para um saboroso café, retornando apenas ao soar da campainha de chamada para o segundo ato.
Em seu apartamento, no Rio, Paulo dizia em voz alta o nome de quem chegava, bastando-lhe ouvir os passos, mesmo que não fossem de alguém tão frequente por lá como eu. Sabia o som dos sapatos, dos passos, e o padrão rítmico de cada um ao andar, explicou. Na hora de eu ir embora, Paulo, bom cavalheiro, me conduzia ao elevador, e ao perceber que eu esperava diante da porta errada ele simplesmente dizia é este aqui, mostrando-me qual deles chegaria primeiro. Tinha uma sensibilidade a toda prova, carregava sempre um par de chaves que girava, uma ao lado da outra, entre os indicadores e polegares das mãos. Mas não explicava para que serviam, se eram alguma espécie de ‘antena’ sensorial ou coisa afim. Conseguia, sabe-se lá como, dizer se alguma moça com quem conversáramos era bonita, e pelo aperto de mão e o tom de voz, o caráter de alguém que lhe apresentávamos.
Outro afeito a coisas da sensibilidade (e do além) era um trombonista de Campinas apelidado Pantera – um negão, como gostava de ser chamado, de uns 140 Kg pelo menos. Tocava na sinfônica local, e chegava arrastando devagar os chinelos, atrasado quando lhe convinha, e faltava dias sem explicação, não estava nem aí. Camisa social desabotoada em cima, ostentava as guias de Umbanda com orgulho. Pois um certo dia as esposas de dois músicos da orquestra, suspeitando que seus maridos as traíam, foram consultar, por sugestão de outra amiga, um pai de santo na Vila Costa e Silva, bairro mais pobre entre o centro e a Unicamp - para confirmar ou estancar a dolorosa suspeita de traição. Chegando lá no endereço fornecido, as inconformadas ‘helenas’ encontraram um homem enorme, as duas mãos cobrindo-lhe o rosto voltado para baixo. Rapidamente, uma das desconfiadas esposas puxou a outra pelo braço e, antes que o pai de santo ‘acordasse’ saíram fora, sussurrando é o Pantera, é o Pantera!
Conhecidos também eram os talentos de um violinista da Orquestra Sinfônica do Estado, hoje chamada por sua abreviatura Osesp. Tratava-se de um discreto chinês que adivinhava o sexo dos futuros rebentos das gestantes, usando para isso um lápis amarrado em uma linha. Conforme o sentido de giração daquele pêndulo de grafite sobre o pulso da grávida, dizia menino ou menina, e não errava nunca.
Perto dele se sentava um colega chamado Coppola, folclore em pessoa, que adivinhava tudo. Terminado o ensaio no histórico Teatro Cultura Artística, na rua Nestor Pestana - que além de via era a fronteira entre a cultura, bons restaurantes, lojas e, do outro lado, o bas-fond local -, lá o aguardava sempre uma moça de fino trato e ‘família quase boa’ com suas botas brancas.
Perguntado qual o segredo de se manter tão saudável aos para lá de setenta e tantos anos, Coppola dizia é que escolho muito bem minhas mulheres! (Os maldosos diziam que ele fechava as torneiras do banheiro com os cotovelos, para não pegar micróbios). Olhos vivos, ouvidos aguçados, adivinhava tudo, um dom aliás pouco conhecido. E para o bem de todos nós, orquestra e Eleazar. Era um homem de paz e bom coração.

sábado, 12 de maio de 2018

“ORA, DIREIS, OUVIR ESTRELAS!”


'CACHAO' e a banda de Tito Puentes
Releio este primeiro verso do poema do Olavo Bilac, só que pensando ‘estrelas’ no sentido de músicos. No último artigo, falei sobre o Zerró Santos, talento nato do contrabaixo e líder da big-band que leva seu nome, em SP. Daí a outro contrabaixista foi um pequeno salto: o cubano Israel López Valdés, o Cachao (1918-2008), que completaria 100 anos em março. Vindo de uma família de 35 contrabaixistas, Cachao foi multi-instrumentista, compositor, um dos criadores do mambo – e da descarga, uma espécie de jam-session em que os músicos tocam improvisadamente, alternando-se nos solos. Exilado nos EUA em meados de 1960, fez algum sucesso mas terminou esquecido. Ia do clássico à ‘salsa’, e, quando à frente de sua banda, tocava ao mesmo tempo em que regia com movimentos do rosto, a boca e até - marca registrada dele - com as sobrancelhas! 
Arcos francês (esq) e alemão, ou à Dragonetti (dir)
Espaço para curiosidade: existe uma rixa bicentenária entre os contrabaixistas que adotam as escolas de arco ‘alemão’ (ou ‘à Dragonetti’), surgida do antigo violone, e os adeptos da chamada ‘francesa’, semelhante à do violoncelo. A disputa é tão aguerrida que, em alguns países, os que empregam uma das escolas não entram na seara alheia. Com a depuração da técnica, ao ouvir uma gravação dos grandes solistas de uma ou outra vertente torna-se difícil distingui-las. E é claro que não poderiam faltar anedotas...
Teste de QI (Amazon.com)
[Conta a estória que o dono de um barzinho, só de olho, seria capaz de dizer o QI do freguês. Certa vez, entrou um sujeito, ele olhou e disse puxa, parabéns, você tem um QI incomum, 140! Olha, ali na mesa daquela coluna tem um rapaz do mesmo nível. Vá lá! Dito e feito, os dois logo começaram a discutir sobre o big-bang, relatividade, pulsars, quasars e afins. Ao próximo freguês, o dono do bar disse que ele tinha QI 100, ótimo, e sugeriu que ele se acomodasse na mesa do outro lado com um frequentador do mesmo QI. Falaram sobre artes plásticas, terceira via, Brexit e por aí vai. Finalmente, veio um terceiro, meio perdido, e ao ver o QI do rapaz, meros 40, sugeriu que ele ficasse à vontade na mesa dos fundos, onde iria se dar bem com a companhia - de quociente igual ao dele, deduziu. O rapaz foi direto ao lugar e se apresentou: olá, meu nome é Mário, muito prazer! O outro: olá, o meu é Nelson, prazer. E para começar a conversa, perguntou você toca arco francês ou alemão?]
Toninho Horta e Novelli
Outro contrabaixista pitoresco era o Novelli, egresso da bossa-nova e que gravou com artistas como Gal Costa, em Pérola Negra.  Disse-me com orgulho que nunca tinha estudado música, falha que, acho, compensava com seu ouvido e memória prodigiosos. Para enriquecer as linhas do seu instrumento, ouvia muito Bach, prestando atenção no baixo-contínuo do mestre do barroco alemão. Novelli falou que só sabia duas coisas: onde a ‘nota do acorde’ está e para onde vai. O ‘caminho’ ele inventava na hora.
Raul, "O Rei do Trombone"
Ouvir também nunca foi problema para o grande trombonista Raul de Souza (1934). Saído da noite carioca, Raul mudou-se para os EUA, onde desfrutou de ótima reputação, tocando em diversas gravações e shows com alguns dos melhores artistas. Conta-se que, em uma gravação, Raul viu-se em apuros, pois não conseguia ler certa passagem mais complicada, era meio fraco na leitura. Na primeira brecha, virou-se para o colega ao lado e disse que aquele trecho estava errado, só podia, e pediu que ele o tocasse. Depois de ouvir, gravou a frase na memória, repetiu-a e disse é, acho que você tem razão, está certo.
Cauby Peixoto, idade antes não oficial (morto em 2016, descobriu-se que aos 85), era um prodígio do ouvido e da memória. Tive a oportunidade de com ele tocar no Tijuca Tênis Clube, início dos anos 70, como ringer (de on the bell ring, músico que chega ‘ao soar da campainha’ do início do show). Após anunciado seu nome, uma plateia formada em 95% por senhoras idosas frenéticas, Cauby fez charme para aparecer. Surgiu e, amainados os aplausos, pediu que anotassem títulos de músicas em pedacinhos de papel e os jogassem em uma cumbuca de vidro.
Sorteou e cantou a primeira: “Free again”, logo de cara, solfejando o arpejo do acorde para nós localizarmos a tonalidade. Ouvido absoluto. Cauby falou, só de charme, que acabara de chegar do México com sua banda – que nunca havia visto, fora seu irmão, ao piano. Após várias exibições de ouvido (para quem entendia) e memória, cantando em português, inglês, francês e italiano, terminou o show sob explosivos aplausos.
Sinatra e Jobim no estúdio
Em NY, uma divertida do saudoso maestro soberano, Tom Jobim (1927-1994), compositor que carregava a aura de um gênio. Ao perceber que músicos curiosos se apinhavam no aquário (lugar separado por um vidro, onde fica a técnica do estúdio) para vê-lo, recusou-se a gravar, segundo o meu amigo baterista Pascoal Meireles. Disse que se ficassem lá espiando iriam ver “que não sei tocar”. Outra: antes de eu me mudar para os EUA, meu pai o encontrou na casa do escritor Paulo Mendes Campos (1922-1991). Disse ao compositor, orgulhoso, meu filho vai morar e estudar nos EUA. Jobim, com clara ironia: ótimo, vai voltar falando inglês.
Carta de Pero Vaz de Caminha
Bom, isso era para ele, Jobim, que nunca precisou sair para aprender, acreditava realmente na “terra em que se plantando tudo dá”, do Caminha (hoje há opções no Brasil!). Sonhador, boêmio e tido como americanizado pelos críticos nacionalistas mais radicais, já com certa idade adotou um charuto, à Villa-Lobos, e declarou sua paixão por urubus e matitaperês, após descobrir que galinhas, cães e bois não são produtos nativos, e sim importações, como o arroz e o café.


sábado, 5 de maio de 2018

‘BOEMIA, AQUI ME TENS...’ MAS NO SÉC. 16?

Sonho de uma Noite de Verão (por Edwin Landseer, 1848) 

A boemia, com seu charme discreto e percalços, perigos e tragédias, não é privilégio de artistas dos tempos atuais. Shakespeare, em seu Sonho de uma Noite de Verão, comédia de 1535, satirizava a boemia, e reclamava dos rabequeiros - do árabe rabab, antecessor do violino e ancestral da nossa rabeca. Disse que os músicos não passavam de bêbados contumazes, e a única coisa que sabiam fazer bem era discutir quem pagaria a próxima cerveja.
Johanness Bach, instrumentista e compositor da numerosa família de Johann Sebastian, foi morto a golpes de espada em 1635, junto a alguns colegas músicos. O autor dos assassinatos foi um certo capitão sueco, que se derramou sobre uma poltrona, inteiramente bêbado, durante uma festança na casa de um rico comerciante de Erfurt. O oficial havia tomado muito além da conta – como, de resto, boa parte dos convivas e músicos. Depois de cochilar durante a apresentação, o oficial acordou de súbito com algum pesadelo, julgando em delírio estar sendo atacado por inimigos, que empunhavam suas armas, digo, arcos e instrumentos. Desferiu golpes para todos os lados, sem mal ver quem lhe aparecia pela frente.
Em 1715, um certo chantre (mestre de capela, maestro) Sicca chegou a denunciar seus músicos às autoridades locais porque chegavam sempre bêbados aos ensaios. Os acusados, em sua defesa, alegaram que tudo não passava de intriga do chefe, já que Sicca teria roubado um Te Deum (hino religioso) por eles composto, e no ensaio seguinte passaram a agredi-lo em revide.

Ion Muniz
Um corte de cinema de volta ao futuro: algumas figuras da boemia nacional, incluindo tantos músicos, eram personagens tão populares quanto o saci-pererê para o caipira das roças brasileiras. Vou lembrar-me de alguns, agora, estava lhes devendo uma homenagem. Ion Muniz (1948-2009), que espatifou seu saxofone contra o meio-fio em NY. Os trombonistas Maciel e Constâncio, da famosa big band ‘mela-cueca’ dos dancings, o folclórico baterista Edison Machado (1934/90), que protagonizou um sem-número de episódios. Ele foi o criador daquela batida de bossa-nova, marcando o ritmo com a baqueta no contratempo - aquele par de pratos acionado com o pé esquerdo -, som que tem a cara e o jeito da bossa-nova do lendário Beco das Garrafas, em Copacabana.
Milton Banana
E quem criou o toque lateral da baqueta esquerda no aro metálico da caixa (ou ‘tarol’, no popular), foi Milton Banana (1935-99), a pedido de João Gilberto, cujo suave violão precisava de bateria com volume de uma caixa de fósforos. A dupla Machado-Banana criou a histórica bateria imitada no mundo inteiro, dando cara à bossa-nova.
Edison Machado
Edison era maluco: se alguém dizia que ele errou, gritava nunca erro, vocês é que erram juntos! Apesar de admirado pelos músicos, o baterista foi sendo gradualmente banido da noite carioca. Mudou-se de mala e cuia para Nova Iorque, onde tudo é possível e permissível entre os músicos, dando enfim vazão à sua personalidade e estilo inconfundíveis. Quem não se lembra daquele memorável solo polirrítmico (diferentes ritmos simultâneos) de bateria na música “Leila” do disco Minas (gravação abaixo), do Milton Nascimento, uma atuação impagável? Morreu e foi esquecido, exceto para os que o ouviram ou conheceram por acaso, como eu, que tive a felicidade de até ‘brincar’ com ele.

Entre os contrabaixistas, o José Roberto, “Zerró” Santos, é um caso à parte. Radicou-se em São Paulo, vindo do Rio, depois de largar sua Belém Natal. Certa vez, deixou o imortal Bill Evans surpreso, no Antonio’s, do Rio, acompanhando de orelhada as intricadas harmonias do pianista americano, os enormes dedos espalhados no teclado, um jazz temperado com impressionismo francês. Com o bar cheio garças à ilustre ‘canja’, Evans virou-se para trás para ver quem era aquele
maluco que fazia aquilo assim by heart (de ouvido).
O Severino
Zerró, chegado do Pará ao Rio em que o conheci e curtimos muita música, às vezes passava por necessidades. Depois, boate após boate, buscando o pão nosso de cada dia, às vezes deixava seus dedos quase em carne viva, dizia curá-los com sal grosso. Lembrava até Morte e Vida Severina, do poeta João Cabral: “fazendo dos dedos isca para pescar camarão”. Nos piores dias, fazia troça dizendo que havia comido ‘sanduíche de pão com pão’. Após algumas noites insones e, sob o efeito de alguma bebida, parecia ter dificuldade de atravessar a rua: esbarrava em um carro, voltava, esbarrava de novo...
Zerró Santos Big band project
Finalmente, em momento de conflito espiritual, disse que iria largar a música para ser padre. Logo voltou à noite carioca, mas desistiu e mudou-se para São Paulo, onde já acompanhou metade dos cantores e cantoras brasileiros e lidera sua própria big band, que leva seu nome. Um dia teve o desplante de me pedir aulas de música. Mas logo você, um mestre, perguntei. Técnica tardia, com certeza um risco à sua musicalidade já consolidada.
O pequeno grande Caçulinha
Uma proeza de ouvido tem o acordeonista Caçulinha, que não bebe sequer um guaraná “caçula” (não resisti). Há uns 20 anos, gravávamos em estúdio um disco de arranjos do grande Luis Arruda Paes, formando uma pequena orquestra. Durante a gravação, aquele baixinho floreava os arranjos nos ensaios. Hora de gravar “à vera”, cutucou-me e pediu que lhe dissesse a hora de parar de tocar – não era adepto da leitura musical. Coisa de piadista, acho que o Caçulinha pode acompanhar até o zumbido de uma mosca. Genial, e todos devem saber disso. Fica neste texto uma homenagem geral aos músicos com ou sem a chamada “manguaça” - ‘boêmios de vida’, da  Idade Média até hoje.




quinta-feira, 3 de maio de 2018

BREVE DIÁRIO DE UM VIOLONCELO





(História do trajeto de um violoncelo escrita de punho pelo próprio Heinz Wilda, o segundo protagonista nos acontecimentos – o primeiro foi o próprio cello – e organizada por mim, o autor deste texto).
Construções da antiga Brescia
Fui concebido em 1697, na Bréscia, por Giambattista Rogeri, mestre de luteria italiano. Como estou em idade madura, mais de 300 anos, pouco me lembro de minha infância, além de quando, há uns dois séculos, levaram-me da minha Itália natal para Londres. Ali, um dia fui adquirido por um músico alemão, Paul Wisa, lá pelos idos de 1875.


Seguindo certa tradição judaica de investir as economias da família em obras de arte, instrumentos musicais e afins, meu dono um dia entregou-me ao seu filho, Heinz Wilda, um garoto de apenas quinze anos, dando-lhe a missão de estudar e se preparar para, em breve, fugir da Europa, levando-me na sua bagagem como ferramenta de trabalho e poupança da família.




Em 1933, já soprava forte o vento antissemita: Hitler acabara de ser nomeado Chanceler da Alemanha. Em um dia daquele mesmo ano, uma gangue de rua fez o jovem Heinz fugir pelas escadarias de uma estação do metrô de Hamburgo. Caiu e rolou comigo escada abaixo, um tombo feio. Fui entregue aos cuidados do luthier Andreas Gläsl, que em mim realizou longas e perfeitas cirurgias, digo, reformas.

Invasão da Polônia pelas tropas nazistas
Hitler encantava sua cada vez maior legião de fanáticos, e Paul dera o sinal a Heinz de que se aproximava a hora de deixar o país. Paul, que havia se apresentado comigo em muitos concertos, achou por bem passar-me de vez ao filho, antevendo os avanços do Führer, e acabou morrendo em circunstâncias misteriosas em 1935. Em 1939, o Eixo havia invadido a Polônia, e Heinz tinha de escapar ou correr o risco de ser executado em um campo de concentração. Conseguiu fugir, levando-me consigo.

Embarcamos rumo à Venezuela, a bordo do cargueiro Cordillera, mas a imigração local nos barrou. Seguimos para Curaçao, nas Índias Holandesas, onde nos escondemos por semanas, até rumarmos para Aruba, uma ilha vizinha, de onde também fomos expulsos. Finalmente, meu dono encontrou um velho judeu que me facilitou um visto para o Equador, e partimos para Balboa, no Canal do Panamá. De trem, chegamos a Cristobal, e aguardamos uns dias pelo comboio para Guayaquil, no Equador, onde ficaríamos por quatro anos, fazendo música, ganhando pouco e comendo muito mal. Ao saber que um parente seu tinha sido aceito no Brasil, Heinz, já casado, saco de roupas nas costas, de braços comigo (e, ah, desculpe, é claro, também a esposa), aportava em São Paulo em 1946.

O lendário Martin Braunwieser e seu coral
Músico, literato e poliglota, bom tradutor que era, Heinz logo conseguiu trabalho. Na música, juntou-se a Martin Braunwieser, um célebre austríaco que Mário de Andrade havia trazido para o Brasil em 1935 para ser instrutor de ensino musical dos parques e jardins da cidade (imagine você, isso já existiu em São Paulo!). Aos poucos ia se dissipando no nevoeiro da memória um passado de tantas fugas, porões úmidos e sujos dos cargueiros, a fome. Estávamos livres, soltos, em um país abençoado por Deus e bonito por natureza.

Um leilão de instrumentos em Londres
Aos 94 anos de idade Heinz me vendeu, e acabei chegando a Nova Iorque, onde quase fui colocado em pregão, mas felizmente acabei sendo retirado às pressas do leiloeiro pelo meu arrependido proprietário. Fui emprestado para um jovem talento nova-iorquino por uns anos, e de lá voltei (passado um século e meio!) para Londres, cidade em que hoje me leva a tiracolo é uma violoncelista chamada Marta Autran Dourado.




Caro diário, segredo entre nós: nunca tive dono. Tenho mais de 300 anos, quero viver pelo menos outros 300, chegar à melhor idade em boa forma. E confesso, querido confidente, ninguém, ninguém mesmo foi meu dono: alguns músicos passaram brevemente por minha vida, como outros ainda por mim passarão, e por minhas virtuosas qualidades – nós, instrumentos, somos para um músico o que o cão é para o homem: seu melhor amigo. Portanto, não pertenci a nenhum artista, eu é que fui dono da música de todos eles, eles me pertenceram.




sábado, 21 de abril de 2018

FIGURAS NOTÁVEIS DA NOSSA MÚSICA POPULAR

Nelson, por João Bosco

Meu último artigo terminou com algumas palavras sobre o Nelson Cavaquinho, mas depois lembrei-me de outras histórias dele que não resisto a concluir antes de ir adiante com outros sambistas. Nelson era um cidadão livre, amante da vida, e como tal se preocupava muito com a morte. Certa vez, sonhou que morreria às três da manhã. Preocupado, acordou de súbito, nervoso, suado, e atrasou seu relógio em algumas horas.
Tereza Rachel à frente do seu Teatro
Conheci o Nelson na entrada do enorme prédio em Copacabana que abrigava os teatros Teresa Raquel e o histórico Opinião. Enquanto eu me apresentava no primeiro, em uma peça musical, Nelson fazia um show no segundo. Certa noite, enquanto os músicos bebericavam em um bar interno, após os espetáculos, dei de cara com o Nelson, já inteiramente bêbado, que me fitou e disse bem alto: “vozê deve zer Zesus Gristo. É bra vozê gui eu rezo dodas as noites”, o que me fez rir muito. Naquela época eu usava cabelos longos e barba, daí essa loucura do compositor. Respondi-lhe não era Cristo, e que nós sim, seus admiradores, é que rezávamos para ele (e tínhamos tantas razões...).
A violeira mato-grossense Helena Meirelles, falecida em 2005, cerra junto às fileiras da mais fuleira boemia. Autodidata, desbocada como ela só, foi considerada em 1993 a revelação do ano pela revista americana Guitar Player, uma espécie de “quem é quem” do violão e da guitarra no mundo. Nascida em uma sexta-feira 13 de agosto, Helena cedo entregou-se à gandaia levada por um tio, para desespero de seus pais. Passou a atuar em bordéis e bares Pantanal afora. Com seus dois ex-maridos e vários companheiros teve nada menos do que onze filhos, que se orgulhava de ter parido sozinha. Na farra, quando acabava a bebida mais forte – aguardente ou qualquer coisa “sem espuma”, como dizia – Helena tomava muita cerveja, mas como ‘bebida com espuma’ não a deixava alta, chegava a misturá-la com qualquer coisa, até perfume. Helena dedicou-se exclusivamente ao violão e à viola caipira, e depois de um salto mais ambicioso foi “empresária do amor”, gerenciando bordéis e o baixo meretrício, atividade que no Pantanal era privilégio da exploração masculina.
Moreira, malandro elegante
Já um consagrado malandro carioca, o ex-motorista de ambulância Moreira da Silva, apelidado Kid Morengueira, falecido em 2.000 aos 98 anos, costumava andar aprumado, elegante e de preferência com seu “liforme branco”, como diria Caimmy , chapéu de palha e, complementando, sapatos brancos quando podia. Mas Kid era malandro esperto: só tomava leite e não dormia tarde! E como era criativo: inventou um breque (do inglês, break”, quebra, freio) nas suas músicas para desfilar comentários ritmados cheios de humor e gírias de malandros.
Moreira da Silva, em seu "liforme"
Assim fez naquele samba Olha o Padilha [ouça logo abaixo], em que ele conta que o temido delegado, para pegar playboy vagabundo, enfiava um limão pela cintura da calça do suspeito, e se a fruta não descesse pela barra, calça justa! Entra no camburão, playboy! Conta o breque: “tu é salafra e acharcador / essa macaca a teu lado / é uma mina mais forte / que o Banco do Brasil “/ (...) “e jogou uma melancia pela minha calça (...)/ que engasgou no funil”. Continuando, disse o Padilha “raspe o cabelo desta fera!” / (...) “Eu, hein? Se eu não me desguio a tempo / ele me raspa até as axilas / o hômi é de morte!”  Tudo declamado à maneira de um rap – deixando claro, há bons raps, que não se pretende música, e sim o que diz sua origem, na tradição hip-hop (graffiti, b-boying, MCing e DJing). RAP é Rythym And Poetry, ritmo e poesia, e ponto. Foram tantos ’cantos falados’, na história, antes do rap, dos trovadores medievais aos recitativos das Paixões de Bach, ao Sprechstimme (do alemão, lit., ‘voz falada’), como no Pierrot Lunaire de Schönberg.

Cemitério do Catumbi. Ao fundo, prédios e favela
O Escadinha (morto em 2004), que foi um grande traficante brasileiro, depois de preso surgiu na voz de Jorge Bem, na letra de W Brasil, e bem às claras: “tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora”. O bandido, como não sabia cantar, lançou uma gravação de espécie de rap. Mas Fernanda Abreu apenas não conseguiu cantar o hino de seu time, o Vasco, vendeu como água suas músicas “da lata”, mas não fazia rap. A declamação ritmada de Moreira da Silva era espontânea, e aconteceu décadas antes disso. O sambista morava em um apartamento perto do Cemitério do Catumbi, na Zona Norte do Rio, vizinho da dona Maria de Lourdes, velha companheira de uma vida, cujo jazigo Silva visitava frequentemente.
Piratininga, barzinho da moda na Vila
Pra não dizer que só falei de cariocas, a noite paulistana foi berço de incontáveis acontecimentos e momentos inesquecíveis, alguns glamourosos. Basta lembrar que na boate Telecoteco, no Bixiga, surgiram artistas como Simone, Benito di Paula, Célia e muitos outros. Hoje, os barzinhos da Vila Madalena – o Greenwich Village paulistano - já abrem espaço para outras linguagens da classe média mais sofisticada. Não há como não curtir esse ‘charme discreto da burguesia’ – parafraseando o título de um filme (1972) do genial cineasta Luís Buñuel.
A divina Dalva e Herivelto
Finalizando, existe coisa mais romântica do que a apaixonada declaração de amor que Herivelto Martins, autor da célebre Praça Onze, fez para sua musa Dalva de Oliveira, em uma boate do Bixiga, ao beber de joelhos champanhe no sapatinho salto 6 dela? Esse contraste, esse quadro que alternei entre o Bixiga de ontem e a Vila Madalena de hoje e agora acabo de retomar do passado, traduz a riqueza de nossa MPB através dos tempos. Que, além, de rica, é multifacetada e cheia de histórias e estórias.

sábado, 14 de abril de 2018

A VOLTA DO BOÊMIO

Roda-viva

Lembro-me dos primeiros versos de uma música do Adelino Moreira cujo título acima tomei emprestado: “boemia, aqui me tens de regresso”. Ao assunto: quando famoso, o músico popular é vítima da sanha impiedosa de seus fãs, de que é exemplo aquela matilha ensandecida a devorá-lo, retratada por Chico Buarque na peça Roda Viva. A privacidade passa a ser mera figura de linguagem: artista famoso é patrimônio e objeto da volúpia coletiva. Sua saúde a todos pertence, suas preferências são divulgadas e imitadas – ou condenadas.
Como no Brasil ditaduras acontecem em períodos cíclicos, gente como Chico Buarque foi alvo de perseguição na última delas, o último regime de exceção, quando o cerco ao compositor era tão implacável que ele teve de gravar com o pseudônimo ‘Julinho da Adelaide’. O povo criava e inventava. Com Milton Nascimento, Chico compôs Cálice: “Pai, afasta de mim esse cálice” (‘cale-se’). Empregava sem parcimônia o duplo sentido e os jogos subliminares, a exemplo também do famoso Apesar de Você, samba que dava a impressão de ser dedicado a uma mulher. Vazou, ‘sem querer, querendo’, que era endereçado ao então todo-poderoso Médici. Censuraram no ato.
Amália, Geisel e Lucy
Naquela época, o cineasta e poeta Ruy Guerra escreveu para o Milton uma letra que dizia “brota em guerra e maravilha”, que esmaecia no final - “na hora, dia e futuro da espera virar...” e os mais radicais da plateia completavam com “guerrilha!”, fazendo sua rima. Outro déspota, Geisel, detestava o Chico - foi a deixa para o compositor inventar um roquezinho bem brega, dois acordes e apenas dois versos: “você não gosta de mim / mas sua filha gosta”, já que Amália Geisel havia declarado que era fã das músicas dele. Assim eram os tempos em que se sobrevivia fazendo música. Sobrevivia: conjugação vestida como uma luva.
Chico costumava secar, com os amigos Vinicius e Jobim, pelo menos uma garrafa de uísque com facilidade. O Poetinha, apelido de Vinicius de Moraes, já devia estar meio alto, e em certa roda de amigos em um bar disse, “o uísque é o melhor amigo do homem”. Foi corrigido por um conviva provavelmente sóbrio: é o cão, Vinicius, o cão é que é o melhor amigo do homem! O Poetinha, certeiro, devolveu-lhe com sua aguçada ironia: então o uísque é o cão engarrafado - frase logo celebrizada.
Véspera da estreia da peça Gota D’Água, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ficou difícil para nós, artistas, vermos coerência entre o discurso e a prática do compositor. Os bailarinos ganhavam menos do que um salário mínimo por até, às vezes, doze horas de ensaios diários. Nós, instrumentistas, nos rebelamos contra o descumprimento de acertos verbais e o despotismo dos irmãos produtores. Uma breve paralisação dos músicos, que já haviam decorado e sumido com as partituras, recompôs acordos e acordes e reverteu minha demissão. E eu, na tentativa de dialogar com o Chico, havia exposto o caso e nossas exigências onde o encontrei: um bar logo ali fora do Teatro Teresa Raquel, a tomar seu uísque. Ele disse que aquilo era assunto da produção, ele era apenas o autor – o problema não é meu, ficou claro. Patético. Uma ducha de água fria.
Noel Rosa e Adoniran Barbosa
Bom de samba e de copo, inspirador do Chico, o Noel Rosa de Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Com Que Roupa, foi flagrado em um boteco da velha Lapa carioca tomando cerveja e conhaque. Alguém passou e o repreendeu, dizendo-o irresponsável, pois sabia que Noel convalescera de uma tuberculose. O compositor riu e respondeu que seu médico o proibira terminantemente de beber, mas caso a teimosia fosse tanta, que ao menos bebesse pouco e bem alimentado. Noel disse que saiu para tomar um conhaque, e “já que se sabe que cerveja alimenta...”
O sambista quase não tinha queixo – as más línguas diziam que era para os goles descerem mais rápido –, suposta manobra de um fórceps barbeiro durante o parto, e foi flagrado em um boteco logo após o enterro de sua mãe. À vontade, camisa colorida, dedicava-se ao seu esporte predileto, o halterocopismo, levantamento de copo. Alguém disse que aquilo era um absurdo, ele deveria estar recolhido em luto. O sambista improvisou: “luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”.
Madame Satã
Outro bom de samba, Geraldo Pereira, autor de Falsa Baiana e Acertei no Milhar, foi frequentador assíduo dos muquifos e bordéis da Lapa carioca e cercanias. Adepto da chamada “mardita”, brigava quase sempre depois de mamado - jargão da malandragem – e com quem estivesse na frente, fosse homem, mulher ou travesti. Em consequência de uma dessas querelas, Geraldo foi assassinado, em 1955, por um violento murro no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, folclórico pederasta do bas-fond carioca. Com Satã ninguém mexia, ele devia ser o próprio demo encarnado.

Como Noel e Geraldo, Nelson Cavaquinho raramente se afastava de um copo. No final da gravação de Pranto de Poeta, do Cartola, autor dos lindos versos “em Mangueira quando morre / um poeta todos choram”, promoveu-se no final da música um afago entre os dois sambistas: Cartola disse obrigado, Nelson, ao que este respondeu “ovligado, Gardola”. Na segunda tentativa melhorou, mas ficou no disco, voz arrastada. Nascido muito pobre, Nelson construía toscos instrumentos com caixas de charutos, fazendo de arames as cordas. Mais tarde, quando teve seu primeiro violão ‘de loja’, usava afinação  mais baixa, não se conformava com a tensão das cordas e  sonoridade, estridente para ele. Afinal, estava acostumado à caixa de charutos e aquele som fanhoso dos arames frouxos, roucos como a voz dele!
Um instrumento de caixa de charutos, de três cordas, bem mais sofisticado, com os "cortes em 'F'" dos violinos