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sábado, 24 de junho de 2017

LÍNGUA PORTUGUESA,

Onde estás que não respondes?

"Semáfaro"? E cadê a crase?
É de arrepiar o estado da nossa língua pátria. Não adianta culpar os alunos, a coisa vem mais de cima. E nem os mal pagos professores, o problema está ainda mais acima deles. Não é preciso ser um erudito, daqueles empedernidos de toga e capelo da Universidade de Coimbra, no Olimpo de seus mais de 700 anos. Gasta-se dinheiro na confecção de placas, e em muitas o que vemos pelas ruas são verdadeiras aberrações, recordistas de erros e maluquices. O que custa ao menos pedir um palpite a alguém confiável para evitar essas sandices? Pior ainda, escrevem quase sempre de forma correta 50% off, sale e afins. Tudo bem que queiram parecer mais chiques – antigamente o chique era o francês -, mas não seria necessária a versão.
Billy Blanco
O secretário de Educação do estado do Rio, Wagner Victer, logo no dia seguinte à sua posse foi entrevistado por um telejornal. Discretos, os apresentadores, com o novo titular no áudio, iniciaram a conversa com a âncora perguntando “secretário, o senhor nos ouve?” Um segundo após, ele responde: “ovo sim!” (Vídeo logo abaixo). Palmas para os dois jornalistas que ficaram impassíveis e poderiam perder o controle, como já vimos muita gente famosa fazer. É preciso ter estômago, fígado para encarar uma dessas sem sair da linha. Dei uma boa risada, mas logo depois percebi que eu me divertia com uma coisa muito triste, digna daquela música do arquiteto e grande compositor Billy Blanco: “o que dá pra rir dá pra chorar / questão só de peso e medida / problema de hora e lugar / mas tudo são coisas da vida...” E esse era o caso. Chorar.

JK e meu pai (à direita)
Concordância verbal é luxo, e a nominal está em extinção. Os políticos de hoje, quando improvisam, em sua grande parte “cometem” coisas absurdas. E mesmo quando leem os textos preparados por seus assessores, o resultado pode não ser tão melhor – a culpa das gafes e erros é de algum assessor mal escolhido? Daí penso que se um secretário de Educação diz “eu ovo, sim”, tudo é possível. No passado, autoridades tinham seus escribas, e era de bom-tom falar bem. JK cercou-se de gente dona de boa escrita: o poeta Augusto Frederico Schmidt, Geraldo Carneiro e meu pai, Autran Dourado, seu secretário de Imprensa (cargo hoje chamado Porta-voz) nomeado aos 30 anos, entre outros. JK gostava de exibir seus dotes de bom par nos  bailes – era o chamado “pé de valsa” – e de usar em público um português escorreito. Para isso tinha seus redatores. Michel Temer, para não falar de obscuros tempos passados, parece tentar manter sua persona erudita, e gosta de uma mesóclise (“fá-lo-ei”), mas dá suas escorregadelas quando diz “as coisas que eu gosto”, quando o correto seria “de que”. Tudo bem, não é dos piores e nem mesmo foi o Sarney do “Marimbondos de fogo”, hoje acadêmico da ABL.
O mal do século nos atinge as redações dos grandes jornais impressos e da TV. Um dos maiores do país no início deste mês publicou como matéria principal uma manchete assustadora: “Assassinato é causa da morte de 48% dos jovens”. O que transparece em primeiro lugar é o absurdo, depois vem a confusão. Morreram assassinados 48% dos jovens brasileiros? Não. “A principal causa da morte entre os jovens é o homicídio”, seria algo mais inteligível. Não há ninguém para ler ao menos essas manchetes de capa (o cartão de visita da edição e do jornal)? Um copidesque mais bem informado? Um título é quase um breve resumo de uma matéria inteira. Se ele confunde, que será do conteúdo? Não digo que todos temos de escrever como linguistas especializados, mas estamos perdendo na correção da escrita e na compreensão em todos os níveis.
Um texto na Internet comentou um erro de um repórter da Globo: “Gafe de repórter da Globo vira piada nas redes sociais”, com direito a foto de estúdio do programa. Mas assassinaram o vernáculo logo na primeira linha: “Em transmissões ao vivo, erros são ‘pacíveis’ de acontecer...” Isso mesmo. Será que a intenção era fazer uma ligação com paz (“pacem”, em latim), e que o pessoal das TVs deveria ser mais pacífico? Não, essas coisas não deveriam ser passíveis de acontecer, tanto a gafe do repórter da Globo quanto o erro da matéria online.
No dia a dia, a concordância, o plural, a crase e a vírgula transfiguraram-se em água benta: cada um tira o que quer (ou põe). Acontece nas redes sociais, transborda nas placas e anúncios, trabalhos e provas escolares. Aquelas regrinhas da escola sumiram das salas de aulas? E ainda vem o absurdo Acordo Ortográfico, de 1990, que visava a unificar a escrita e a fala dos países de língua portuguesa – acordo na verdade só cumprido pelo Brasil. Passaram a complicar ainda mais o que já estava consolidado: agora é pão de mel (feito de mel?) e não mais pão-de-mel, pé de moleque (pé do menino?) no lugar de pé-de-moleque, expressões que soavam como uma palavra só, tinham sentido em si.

Tiraram o acento de pára, do verbo parar, mais uma confusão que poderia ser evitada muitas vezes mesmo acatando a nova ortografia. Exemplo é a recente manchete de capa de um grande jornal: “Tempestade para São Paulo”. Ora, seria o título um pedido a São Pedro para que despeje um aguaceiro sobre a cidade? Não serviria “Tempestade paralisa São Paulo”? O maldito Acordo Ortográfico veio para complicar ainda mais, e lembra a famosa frase do Chacrinha, o hilário guru “profeta” da comunicação televisiva: “eu não vim para explicar, mas para confundir”. Certo estava ele quando disse “quem não se comunica se trumbica”, uma de suas frases lapidares. 

sábado, 17 de junho de 2017

NAPOLEÃO, LUÍS BONAPARTE E O BRASIL


O mais ilustre cidadão da Córsega, nascido logo após a ocupação da ilha pela França, aos 16 anos Napoleão já era oficial de artilharia. Sua trajetória política alinhava-se ao seu engajamento intelectual e sua formação filosófica; com isso, tornou-se cônsul de grande poder no triunvirato francês. O país estava arrasado pela corrupção e a crise geral, o povo revoltado com toda a classe política, que assaltava os cofres públicos e deixava as mentes entorpecidas ante os desmandos dos governantes.
Partitura adulterada por Beethoven
Napoleão como cônsul foi implacável com a corrupção, colocando o país de volta nos eixos, e tornou-se um ícone para a França, que o inflou de forma tal que em 1804 sagrou-se Imperador. (Corte de cena: desde 1803 Beethoven vinha trabalhando em sua terceira sinfonia, concluída pouco antes da sagração napoleônica. Revoltado com a autocoroação do  imperador e convicto de suas ideias republicanas, Beethoven tomou-se de raiva tal que riscou a dedicatória na partitura original de orquestra da obra, chegando a rasgar o papel. Riscou do frontispício o nome “Buonaparte”, a quem havia dedicado a peça, fato narrado por seu aluno e secretário Ferdinand Ries. A sinfonia passou a se intitular “Eroica”, e triunfou abrindo caminho para a transição que mais adiante haveria de revolucionar a música, do classicismo ao romantismo. A partitura original com a profunda rasura feita com fúria pelo compositor se encontra na biblioteca Gesellschaft der Musikfreunde, em Viena).

Luís Bonaparte
Luís, sobrinho de Napoleão, sagrou-se imperador, à sombra e semelhança de seu tio. No célebre 18 brumário, aliás muito bem analisado pelo historiador Karl Marx em “O 18 brumário de Luís Bonaparte”(1852), Luís seguiu o modelo do tio, Napoleão, dando um golpe de estado e assumindo-se monarca absoluto.

Mas o Napoleão   cônsul havia modernizado o estado e a educação e criado os códigos penal e civil, além de reduzir o poder do clero. Era também, dentro de suas atribuições geniais, ótimo analista de Machiavelli: há uma edição de O Príncipe comentada e com diversas críticas suas ao pensador florentino. Gosto de um exemplo em especial: “Preocupações pueris. A glória acompanha sempre o poder, independentemente dos meios utilizados para sua obtenção” - sobre atitudes criminosas e o assassinato de compatriotas para se chegar ao poder. Mas “A arte da guerra” (Dell'Arte de la Guerra), de Machiavelli, foi sim a maior inspiração de Bonaparte! Estudioso da história, dono de uma soberba e uma fome de poder que aumentava com sua popularidade, escrevia sobre sua própria inteligência de estratego e líder. Sua volúpia pelo poder descambou na determinação de dominar a Europa, feito que inspiraria outros estrategistas, do século 20 ao atual.
Santa Helena
A ambição dominadora do Napoleão imperador terminou por dilapidar os cofres públicos cuja sangria ele mesmo havia antes estancado, e o país, a exemplo do que acontece após os grandes genocídios e guerras, entrou em colapso político e econômico. Sem saída, foi forçado a abdicar ao trono e isolou-se na ilha de Elba, perto da costa da Itália. Mas voltou à França, reassumiu o controle dos exércitos, e sobreveio a histórica batalha de Waterloo. Em 1815, foi exilado na ilha de Santa Helena, uma distante possessão atlântica inglesa, onde veio a morrer em 1821.

Vale conhecer o pensamento de Napoleão, suas reflexões políticas, aforismas e análises. No livro Manuel du chef. Aphorismes choisis (“Manual do chefe. Aforismas escolhidos”), com material compilado por Jules Bertaut, há pérolas de toda ordem. Napoleão comparava sua paixão pelo poder com a de “um violinista ao seu instrumento, que dele extrai acordes, harmonia e notas”, confissão de que o poder era a vocação mais profunda de sua alma. Achava que a frieza era a maior virtude de um homem predestinado a ser um líder, e que era preferível ser amado do que proferir lindos discursos. Por isso, para ele a inteligência de usar seus atributos era maior do que a força, mero instrumento para fazerem avançar suas ambições. Napoleão narrou em seus escritos um contraponto com grandes comandantes do passado, como Aníbal frente ao exército de Cartago e César na conquista da Gália, ambos fortes líderes sem os quais “seus exércitos não seriam bem-sucedidos”. E considerava-se sábio ao dizer que nunca dava sua palavra, e essa seria a melhor forma de mantê-la. E que ouvia a todos, mas nunca dizia o que iria fazer.


Golpe de Getúlio: O Estado  Novo
Adiantando o relógio da história e a longa distância no mapa, o Brasil vem de turbulências e revoltas, com intervalos de alguns aparentes sucessos, mas graves ruínas provocadas nos pós-golpes – e eles foram tantos, e tantas foram as tentativas -, entre os quais se destaca o longo retrocesso de 1964/1985, após o qual já estava enraizada a corrupção, e a economia foi entregue aos civis em frangalhos. Leis e Constituição rasgadas, as atrocidades cometidas lembrariam as do Napoleão  imperador. Se sobreveio depois um ordenamento legal e constitucional, hoje transborda, emoldurada por um aparente estado democrático de direito, a corrupção em todos os níveis públicos e privados em suas múltiplas facetas, mascaradas por vaidades extremas que despertam suspeitas na conduta de boa maioria dos integrantes dos três poderes. Não há mais lugar para um novo clone de Luís Bonaparte, a repetir trechos de nossa desastrada história. O Brasil parece já ter se descolado dessa fase, e não haverá mais Napoleões e Luíses com suas tropas ou milícias na atual correlação de forças, ao menos enquanto perdurar o estado de direito, mesmo que respirando por aparelhos. 

sábado, 10 de junho de 2017

MORENA POESIA

“Sei que a noite inteira eu vou cantar / até segunda-feira quando volto a trabalhar / morena...”/ (...) ”seu abraço meu emprego / quando chego no meu lar / morena...” O Chico sabia exaltar as morenas, e parece que sempre as preferiu na vida, desde a Marieta até as mais recentes. E louvou as morenas revolucionárias, bem ao seu feitio: “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela / será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela/ (...) Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA” (pronuncia-se “Emepéla”: Movimento Popular pela Libertação de Angola).  “Passando pelo regimento ela faz requebrar a sentinela”. Ou na fase mais lírica, tão mais suave e apaixonada: “Morena, dos olhos d’água / tira os seus olhos do mar. / Vem ver que a vida ainda vale / o sorriso que eu tenho / pra lhe dar”.

Que fascínio especial a morena exerce sobre poetas e compositores? E desde bem antes de José de Alencar: “Iracema, a virgem dos lábios de mel / que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna / e mais longos que seu talhe de palmeira”. Castro Alves também revela suas atrações pela cor, seja apenas dos cabelos, pela pele jambo, ou pela cor negra, como em sua Morena Flor: “Ela tem uma graça de pantera / no bem-comportado andar de menina / no molejo que vem quase se espera / que de repente lhe salte em cima”.

Castro Alves
O grande poeta baiano faz uma alegoria com a graciosa pantera, fera felina, embora graciosa, como diz, mas veja nas entrelinhas “sempre se espera (...) lhe salte em cima”. Era uma poesia com uma sensualidade tão pura – e tão diferente dos às vezes ofensivos e grosseiros ataques de hoje. Com isso, encanta, e devia encantar quem o lia. E a morena que os poetas cantavam eram as negras, mestiças, índias ou simplesmente as de escuras melenas, que populavam o imaginário do país. O Brasil ainda não tinha a rica diversidade – miscigenada ou não – de raças como hoje, após os europeus, notadamente os alemães e italianos, trazerem ou aqui se unirem às mulheres locais, deixando filhos com traços de loiras e ruivas.

Loira e de olhos claros, só a mãe d’água, cantada por Gonçalves Dias, no passado mais distante:  “...mil peixinhos brilhantes / mais luzentes e mais belos / que o ouro dos meus cabelos...” devia cantar a “mãe” da lenda. “Mais louras que as folhas crestadas / (...) enroscam-se as tranças / quais seres de luz”. Segundo o historiador Câmara Cascudo, em consonância com Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), a “mãe” original veio trazida de há muito pelos portugueses, vindo a sofrer modificações nas cores da pele e dos cabelos posteriormente.

Em nosso folclore, a exemplo de uma das muitas versões da lenda da Iara (há as morenas e até as de cabelos verdes), que se assemelha, sem ser sereia, à Lorelei, frequente no Rio Reno alemão, visão que atraía os barqueiros. Esses, inebriados pela beleza nunca vista da moça e sua voz tão bela soçobravam e espatifavam seus barcos sobre as pedras (na verdade, o canto dela era o vento, uivando ao fazer um semicírculo em uma grande reentrância nos altos rochedos). Nossa Iara veio da mãe d’água, que não era sereia, e penteava suas longas melenas sentada sobre uma pedra no meio da correnteza. E arrastava os homens para o fundo do rio.

Salve a imortal Marina, do Caymmi: “Marina, Marina morena, você se pintou / Marina, você faça tudo, mas faça o favor / não pinte este rosto que eu gosto...”, e de onde mais seria Marina? Da Bahia, região morena por natureza, apesar de hoje algumas estrelas, sabe-se lá o porquê, tingirem seus cabelos de loiro para buscarem sucesso. Mas não bastariam a voz e a beleza da cor da baiana? Também nordestino, Alceu Valença nos brindou com “Morena tropicana, eu quero teu sabor / Ai! Ai! / Ioiô! / Ioiô”. Entre as musas de cabelos escuros, as nordestinas são as preferidas de artistas como Luiz Gonzaga, o “Lua”, com seu jeito inconfundível: “Vem, morena, pros meus braços / vem, morena, vem dançar / quero ver tu requebrando / quero ver tu requebrar / (...) resfulego da sanfona / inté o sol raiar”.

Mário Lago
De Mário Lago e Aracy de Almeida brotaram letra e música desta marchinha de carnaval, que tantos novos amores atou nos bailes da vida: “Linda morena, morena / morena que me faz penar / a lua cheia que tanto brilha / não brilha tanto quanto o teu olhar”. Jobim troca de astros, lua pelo sol, como bom ipanemense: “...mas seus olhos morenos me metem mais medo / que um raio de sol / oh, Lígia / Lígia”.

Lembro um lindo soneto do poetinha Vinicius de Moraes: “Como uma jovem morena / linda, esgalga, penumbrosa / parece a flor colhida / ainda orvalhada / justo no instante de tornar-se rosa”. Se há um louvor à morena e sua beleza, há também uma conotação sensual que é de uma singeleza infantil. E delicada como as gotas de orvalho que ele canta, tal como a poesia da pantera de Castro Alves. Joaquim Manuel de Macedo foi um dos precursores do romantismo brasileiro na literatura, com A Moreninha, de 1844. Texto repleto de mistério, profecias, juras de amor e simbolismos, obteve tanto sucesso que fez Joaquim desandar de seus estudos de medicina para se entregar por inteiro à literatura. O mais recente Ignácio de Loyola Brandão, paulista de Araraquara, tem na cidade natal velhas paixões. A uma delas, o trem de ferro, dedicou um livro de crônicas, e escolheu para título outra paixão, um dos melhores textos: A Morena da Estação.

A morena é musa dos poetas pela origem do nosso povo. 

sábado, 3 de junho de 2017

QUAL O IDIOMA DA MÚSICA?

Grupo Na Ponta do Dedo
O chorão toca seu bandolim, criado no século 18 a partir da bandola italiana. Usa uma palheta (como o plectrum do antigo cravo). No grupo, o cavaquinho, também conhecido como Braguinha, veio da Braga lusitana, onde se chamava viola braguesa; o violão descende do alaúde (al-ud) e seus parentes, introduzido pelos mouros durante a ocupação da Península Ibérica (711-1453). Pode ter seis ou sete cordas, e faz a ‘baixaria’. O pandeiro, saído do adufe árabe, cuida do ritmo, enquanto a flauta (do francês flûte, encontrada até em osso na pré-história) leva a melodia, às vezes seguida também pelo banjo, introduzido na África pelos árabes no séc. 17. O choro é música que nasceu da mistura do schottish - escocês, claro -, da polca polonesa e do samba (de semba, em dialeto de Luanda), por sua vez mesclado com maxixe, mistura de vários gêneros.

O guitarrista trabalha seus licks, trechos curtos em progressão, e riffs, padrões rítmico-melódicos. Costuma usar pedais como o sustain e o wah-wah (o som lembra o da surdina de trompetes nas velhas big bands), entre outros. Os grupos procuram gigs (do inglês) ou cachês (do francês cachet) para serviços em clubes ou boates (do francês boîte, caixa, pequeno ambiente), para depois se divertirem em uma jam-session, brincadeira de músicos (J.A.M.: jazz after midnight), quando o trabalho já terminou. Os acordes são escritos em cifras no mundo inteiro: “Cmaj7”, dó maior com sétima maior (major) e “Dmin7”, ré menor com sétima menor (minor), ambas em inglês).

Na música clássica, acontece o tempo todo: desde “sonata” (it.) peça tocada, ao invés de “cantata”, cantada. Sonata depois passou a designar uma forma-padrão de movimentos; “sinfonia” (do grego) é o agrupamento de vozes, sons, depois também uma forma composicional definida. Pavana vem do francês pavane, dança palaciana. O pianista pode tocar um “impromptu” (do latim, improviso), uma “balada” (do francês ballade), canção de espírito narrativo, ou uma polonaise (polonesa, em francês) como em obras de Chopin. Pode-se tocar uma passagem em piano, suave, quem sabe mezzo-forte (em italiano); cantar com voix de poitrine (voz de peito, em francês), ou boca chiusa (boca fechada), como na Bachianas 5, de Villa-Lobos.

Os instrumentos de arco podem ser tocados de centenas de formas: legato, sem interrupção no som, spiccato (do italiano spicare, separar), com o arco saltando, jeté, ‘atirado’, sul tasto, executado próximo ao tasto, peça de ébano sobre a qual os dedos da mão esquerda pressionam as cordas. Talvez um detaché, ‘destacado’, em francês, col legno, ‘com a madeira’, em italiano, percutindo a vareta do arco na corda, portato (do italiano), sequência de notas levemente separadas, articuladas em uma mesma direção, e tantas outras. Há várias formas de se tocar cada um desses ‘golpes’, a depender da escola estilística e da época. E há os termos mistos, que juntam dois ou até três idiomas, como em col legno gestrichen (italiano-alemão), um movimento em que a vareta do arco é ‘raspada’ sobre a corda, juntamente com a crina, e detaché off-string (francês-inglês), destacado, com o arco carregado fora da corda, sem nela repousar.

A harpa, de cordas dedilhadas, pode tocar près de la table (do francês, ‘perto da mesa’, o tampo harmônico, caixa de ressonância do instrumento. O profissional que constrói ou repara instrumentos de cordas é o luthier ou liutaio, em francês e italiano, respectivamente (de luth, alaúde, que vem do árabe al’ud). As madeiras do violino também levam nomes estrangeiros, principalmente italiano, como accero e abeto.
Eu poderia discorrer sobre o assunto ad libitum, expressão latina que em música significa que o instrumentista ou cantor deve executar sua parte com liberdade, sem mensurar o tempo. No meu Dicionário de Termos e Expressões da Música (SP: Ed. 34, 2004), coletei mais de 10.270 verbetes em diversos idiomas, mas sem incluir biografias para “engordar” o texto: são apenas termos e expressões. Mas será que todos os músicos são versados nessa babel de termos? Claro que não!
Os que fazem a música pura, a linda música de raiz, do baião ao xaxado, do cururu à moda de viola, do vaneirão à guarânia, do desafio ao samba de partido alto e o pagode - aquele de verdade, a tenda montada no quintal lembrando um pagode chinês, e não o modismo da TV, bem diferente.

(Oscar Pereira da Silva)
Todos usam instrumentos cuja origem para eles não importa realmente, e fazem sua arte por herança oral (diria até “aural”), coisa de pai para filho. Usam a viola caipira (ou um de seus outros 12 nomes) afinada em cebolinha, cebolão, rio abaixo, rio acima, conforme a região e o estilo. Pegam no ‘pinho’, sua viola de arame, e com incrível habilidade avançam na técnica chegando mesmo ao virtuosismo, simplesmente pela prática. No samba, podem tocar surdo de 1ª ou de 2ª (o tempo mais forte), e às vezes instrumentos que sabem apenas ser de origem africana, como afoxé e agogô, e isso lhes basta.


Esses artistas sabem que sua música sai do coração, tocam quase sempre por prazer e dedicação de devoto, não pensam em ser “sertanejos pop” e ficarem ricos. Sua arte é para sua comunidade, seus amigos, em quintais e bares, para quem quiser ouvir. Não pedem cachê, basta-lhes uma cervejinha barata ou uma 'manguaça' para abrir a garganta. Fazem desse amor à arte profissão de vida. E não carecem de quem os ensine teoria e afins: se ensinarem, estraga. 

sábado, 27 de maio de 2017

GLOSSÁRIO DA LAVA JATO

Sempre ouvi duplex, triplex, palavras oxítonas. Agora, nos episódios mais recentes, como no depoimento do próprio Lula – não que ele seja uma referência linguística, mas certamente é de seu uso e costume – também aparece triplex. Da mesma forma, o meritíssimo (palavra, aliás, merecidíssima) Sergio Moro prefere a palavra triplex– propriedade que, se é do Lula ou não, ainda cabe a presunção de inocência acima de nossas vãs, embora óbvias suspeições.

Mas há uma questão, com o “benefício da dúvida”, como diria o jurista: A Folha escreve tríplex (com acento), enquanto O Estado prefere triplex (sem). O Jornal Nacional, da carioca Globo, diz triplex, mas os demais preferem a forma acentuada. Qual seria o correto, se é que há correição absoluta em nossa rica língua? (Não confundir com outro significado de correição, que é o que faz uma corregedoria, já que estamos em pleno ambiente jurídico). Às pesquisas: o Houaiss mostra as duas formas, mas prefere tríplex, sabe-se lá o porquê. Já o Vocabulário Ortográfico da Academia de Letras classifica triplex como adjetivo, e tríplex um numeral.
Sempre na vida ouvi falar em “duplex na Vieira Souto”, refinadíssima avenida em Ipanema; assim, cabe-me a opção, e fico com a palavra que sempre ouvi, duplex – ou triplex. O linguista e filólogo Deonísio da Silva acha que deve acabar prevalecendo a forma sem o acento agudo no ‘i’. Penso que as palavras que vêm do latim, como córtex e vórtex, da anatomia médica, levam acento por causa da pronúncia original em língua que não conhece acentos, a terminologia apenas ajusta a pronúncia latina ao português.
Vou ao centro da minha questão, bastante delicado: a imprensa, em geral, tem sua culpa, sua máxima culpa, quando usa o verbo citar. Ora, estando em ambiente de discussão jurídica, citar se refere a citação judicial, uma intimação expedida pelo juiz. Quando o juiz manda citar, ele tem elementos que o levam a ver indícios de culpabilidade da pessoa objeto da citação, ou, se testemunha, de sua importância para o esclarecimento dos fatos. Mas a grande imprensa presta um desserviço à presunção de inocência que é exigida pela Constituição: rasgou de vez o verbo mencionar e generalizou o citar. Se todos os que a imprensa mencionou como “citados” na Lava Jato fossem réus, não haveria tribunais para tantos processos.

Imagine que determinado empresário já citado como réu conversou rapidamente com uma atriz ao entrar em um restaurante e a menciona em depoimento. Foi ela “citada” no processo da Lava Jato? (Usando uma alegoria exagerada em minha argumentação.) Nunca. É que o nome dela foi simplesmente mencionado de passagem na operação. Crucifica-se sem julgar, independentemente de partido político, muitas vezes apenas por algum delator que, em seu interesse, quereria apenas “engordar peso e preço” de sua delação.

A imprensa escrita confunde, não explica, e, com os préstimos das emissoras de TV, faz o povo assimilar a crucifixão antecipada de quem sequer é réu e pode não ter culpa alguma em coisa nenhuma. Um pequeno dicionário jurídico deveria fazer parte da escrivaninha dos jornalistas da área ou dos que redigem os textos dos teleprompters (aquela telinha onde os textos exibidos na frente do apresentador de telejornal, passando para o telespectador uma impressão de grande e muito bem informado orador).

Faz alguns dias, argumentei em uma rede social sobre esse cruel equívoco. Foi com o Deonísio da Silva, já mencionado acima (evitarei o verbo citar por algum tempo), um dos mais conceituados linguistas do país. Deonísio, em “Sem papas na língua”, sua participação semanal no programa do Ricardo Boechat (rádio Bandnews) - aliás um prato saboroso para os que gostam do assunto – faz alusão a um aparte meu na discussão ao questionar o uso de citar ou mencionar (gravação do dia 12 de maio - https://fatosfotoseregistros.wordpress.com). E trata de outros assuntos deliciosos, como a ‘raivosidade’ dita recentemente pelo Michel Temer. O mais importante: o professor diz que nossa língua não se resume aos dicionários, ela também está na escrita e na fala dos brasileiros. E a agregação do sufixo na palavra “raivoso” é plenamente justificável!
Antonio Magri
Pois foi o mesmo argumento que meu pai usou em um artigo sobre o “imexível” dito pelo ex-ministro Antonio Magri, em 1990. Disse que uma palavra poderia, sim, entrar para o vocabulário pelo acréscimo do prefixo ‘i’, de negação (palavra, aliás, já dicionarizada pelo Houaiss). E isso enquanto o então ministro, um cidadão acima de qualquer erudição, apanhava da “patrulha”. A publicação foi na famosa Coluna do Castello, no Jornal do Brasil, e por mim detalhada neste espaço em “Nossa língua não é imexível”.


Outro citado judicialmente e preso é o ex-magnata e hoje nouveau pauvre Eike Batista (rico só fica pobre em francês). Seria o nome do empresário pronunciado “Áique”, como em alemão, ou “Êique”, aportuguesando? Tratando-se de nome, creio ser justa a versão em português, apesar de não ser a única. (Meu próprio sobrenome, Autran, de origem francesa, soaria algo como “Ôtrrã”, coisa que nunca ouvi na vida.) E há outro preso pela Lava Jato, a que Lula e a imprensa se referem como Paloci (Antonio Palocci), codinome “Italiano”, cuja pronúncia na língua de Dante seria “Palótchi”, ou quase isso. Sou da época dos grandes jornalistas e articulistas da história, tempo que “é só uma fotografia na parede. Mas como dói”, citando (literariamente!) Drummond. 

sábado, 20 de maio de 2017

MEU CARO AMIGO TAURINO


Há um bom punhado de anos recebi de presente de uma amiga – taurina, claro - o livro Taureau, de André Barbault (da coleção Le Zodiaque, Éditions de Seuil, 1957). Não se trata de um livro de curiosos, Barbault e seus colaboradores Louis Millat e Jacqueline Bastide tiveram a supervisão de François-Régis Bastide (1926-1996), escritor, político, ensaísta, apresentador de rádio e diplomata, prêmio 1981 da Academia Francesa. Trata-se de um estudo coordenado por uma celebridade e organizado por especialistas em áreas diversas, como filosofia, história, política e astronomia.

Nas páginas introdutórias há uma frase do psicanalista C. G. Jung (1875-1961), autor de “O homem e seus símbolos”: “Nós nascemos em um momento determinado, em um lugar também determinado, e nós temos, como os homens célebres, o ano e a estação que nos viram nascer. A astrologia não pretende ir além deles” (em L’Homme à La Découverte de son âme, título que poderia ser traduzido como “O homem à descoberta da sua alma”). Nessas páginas iniciais, o autor do livro aborda os decanatos, zodíaco, cartas celestes, signos ascendentes, tudo longamente detalhado e com incrível precisão.

Dionísio, deus mitológico
A seguir, fala da fertilidade e da fecundação, as ligações mitológicas com o deus Dionísio, e no capítulo seguinte resume o que é o taurino: “ele é, em parte, um signo da Terra: o mais denso elemento, o mais sólido, o mais estável; por outro lado, é um signo fixo, fator de catalisação, de condensação”. O texto disseca o taurino e suas entranhas psicológicas e entra na análise da posição do taurino no zodíaco. Sobre os ascendentes, descreve os elos entre eles e o signo touro, em si, e eu, convertendo os horários e minutos dos fusos franceses para o nosso, descobri meu ascendente.

Eu seria um touro virginiano de “natureza simples, sólida, prática, honesta, modesta, ordenadora, pacífica, com sentimento utilitário, de bom senso, lógico, econômico” (atenção: citação literal do livro, e não palavras minhas, claro). Mais adiante, fala da relação do taurino com outros signos, e ressalto a do touro com o escorpião, caso das mulheres de meus dois casamentos: “eis o choque dos antagonistas, o casamento tormentoso dos complementares. Esses dois se atiram irresistivelmente e pessoas desses signos jamais são indiferentes umas às outras”. Acrescento ainda que noto certa cumplicidade entre taurinos.

Johannes Brahms
O texto segue discorrendo sobre atitudes no trabalho, finanças, política e filosofia. E passa a falar sobre taurinos célebres, citando sempre seus ascendentes: o poeta d’Annunzio, o escritor Balzac, o pintor Delacroix, o criador da psicanálise, Freud, o pai da arquitetura moderna Walter Gropius, o teórico Karl Marx, um dos maiores sinfonistas da história, Johannes Brahms, além de tantos outros, dando uma visão geral da personalidade dos que compartilham este signo (acrescento Shakespeare e Ella Fitzgerald, só para citar mais dois). A coleção inteira pode ser adquirida pela Internet, mas é preciso um conhecimento razoável da língua francesa.

Alguns estereótipos e clichês em torno da figura do taurino são bem conhecidos, e se relacionam com o animal e seu jeito de ser. O touro é um animal reservado à procriação, enquanto os bois são castrados, sendo destinados ao abate e corte. Costuma ficar em espaço reservado, e parece o animal mais manso do mundo. É raro acontecer, mas quando atiçado ferozmente... Veja as criminosas touradas, se ele sai para o ataque, após ferido, de caçada na arena torna-se o caçador, ferindo ou matando, às vezes, o toureador, com sua veste bonita e capa vermelha (apenas para fazer “show”: touros não distinguem cores).

No dizer popular, o touro fica em seu canto e suporta tudo, mas volta e meia fica “ciscando” o chão com suas patas. Provocado além de seu limite, o que dificilmente acontece, dispara contra o que o intimidou; e que se danem vaqueiros, bois, vacas, porteiras, cercas de arame farpado, o que estiver na frente. Essa alegoria parece surreal, mas não deixa de ter certa procedência: o taurino pode ser o mais paciente, mas nunca o faça passar de seu limite, pode ser a gota d’água.

Martha Herr, no papel de Olga, da ópera homônima de Jorge Antunes
A saudosa soprano Martha Herr, taurina, costumava fazer em um domingo de maio, anualmente, um almoço para amigos taurinos, que congregava gente como os também falecidos violinista Bruce Mack e o professor de canto da Unesp Fernando Carvalhaes; além deles, a pianista Anna Claudia Agazzi, o compositor Ronaldo Miranda, o violoncelista David Chew e a cantora Sheila Minatti, entre outros, em anos diversos. Não sei se por termos um elo comum, o signo, aliado ao fato de sermos todos músicos, o clima de festa e de entrosamento era muito especial. Reinava sempre a alegria, era uma ‘tourada’ sem o maldito El toreador, nada haveria que perturbasse aquele rebanho de pacientes taurinos.


Miguel de Cervantes
Confesso que não sou muito afeito a coisas astrológicas, apesar de saber que algo existe entre nosso comportamento e os astros: a lua rege o ciclo menstrual das mulheres e as marés, o sol marca o dia e o ano, por isso o calendário gregoriano teve de dar uma “acomodada” com o ano bissexto, dando a fevereiro mais um dia a cada quatro anos. Não sou muito afeito a essas coisas – o que pode ser mais uma característica taurina -, mas que há algo de verdadeiro, parece-me que sim. Sou do tipo que repete aquela máxima atribuída ao grande escritor espanhol Miguel de Cervantes, yo no creo em brujas; pero que las hay, las hay: eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. 

sábado, 13 de maio de 2017

DE ONDE VENS, Ó PALAVRA?


Um sujeito estrambótico que era estrelícia do Ivan fez um garabulho enorme com suas galimatias a apenas um estepe da rica Mascate. Ora, tudo isso pareceria muito complicado, a não ser que fosse escrito assim: um sujeito vesgo que era atirador do Czar fez uma bagunça enorme com suas conversas confusas a apenas um passo da rica capital de Omã. Seguindo: tudo por causa do meirinho de que era dono um pária que mascava porrada como se fosse um preito do pretor. Que, por sua vez, pode ser lido assim: tudo por causa de um sujeito da classe mais baixa da Índia que era dono do gado que no verão pasta nas montanhas e mascava erva para temperos como se fosse uma homenagem do comandante do exército.

Deonísio da Silva
Deixem-me explicar melhor essa estória surreal acima. É que estou me divertindo com o livro “de onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, do amigo Deonísio da Silva (17ª edição, Rio de Janeiro. Lexicon: 2014). Catarinense que adotou o Rio, doutor em Letras pela USP, tem várias academias no currículo, 34 livros publicados, um programa apresentado pelo Ricardo Boechat em que ele fala da língua portuguesa na Rádio Bandnews FM 94,90 RJ, “Sem papas na língua”. Considerado um dos nomes mais respeitados em etimologia (origem e evolução das palavras) e filologia (estudo das sociedades e suas literaturas) do país, é um pesquisador incansável. (O blog do Deonísio pode ser lido em https://deonisio.blogspot.com.br/). Na brincadeira acima, inspirei-me em uma postagem dele.

Hemingway e um de seus merlins: um hobby, uma paixão
São quase quinhentas páginas de verbetes os mais diversos, incluindo um enorme número de palavras que falamos ou escrevemos no cotidiano sem pensar de onde vêm e os mistérios que há por trás delas. Quem gosta de entender nossa língua, lê ou escreve, vai achar o livro de grande utilidade. Pinço ao acaso uma palavra que todos conhecem e já devem ter usado: “anzol”, que teve origem no latim vulgar “amiciolus” diminutivo de “hamus”, gancho, podendo também designar a proteção do cabo da espada. “Anzol” se presta à descrição da luta individual travada entre o homem e o peixe, ao contrário da rede, que leva o homem a pescar no atacado (obs.: sobre a luta homem contra o peixe, é leitura obrigatória “O velho e o mar”, de Hemingway). “Como os primeiros discípulos fossem homens que viviam no mar, Jesus prometeu transformá-los em ‘pescadores de homens’”.

Este é um único exemplo “pescado” aleatoriamente (do grego “alea”, dado de jogo da sorte) entre incontáveis outros. Deonísio é um preciosista, desce aos mínimos detalhes e encontra variações na aplicação das palavras, não se limitando, no mais das vezes, a apenas um significado ou um uso em nossa rica língua portuguesa. As palavras podem formar um quadro que pode ser lindo de se ver, mas por trás dele há um universo de histórias e visões riquíssimas a serem descobertas. É preciso ousar conhecê-las, e fazer do aprendizado do dia a dia uma coisa prazerosa e desafiadora, porque nunca terá fim. E o livro do Deonísio pode ser lido saltando páginas, de trás para frente, várias por dia, ou – mais uma vez – aleatoriamente, fora consultas.

Se conhecer a etimologia das palavras é uma instrução e uma diversão, não quer dizer que devamos escrever sempre com as mais rebuscadas erudições. De vez em quando coloco em um texto meu uma palavra para ver o leitor se dar ao trabalho de ir ao dicionário, ao menos isso. (Meu pai contava que uma senhora disse que o livro dele era muito difícil – o que não era – e que ela teve de ler duas vezes. Ele: “mas eu escrevi mais de vinte!”) Adoro a simplicidade com que certos grandes autores usam as palavras, tecendo um jogo lindo e de grande sabedoria, como Drummond e Fernando Pessoa, d’além mar. Do primeiro, os versos de Para Sempre: “Fosse eu rei do mundo, / baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, / velho embora, será pequenino / feito grão de milho”. Do Pessoa, acho geniais os versos de Liberdade: “Mais que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”.

Estátua do Drummond, no Rio
Entre os nossos poetas, há lugar para o bardo Vinicius de Moraes – “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”, do Soneto da Separação. Vinicius é outro mestre da simplicidade (nas palavras), mas os versos são mais bordados em João Cabral, de Morte e Vida Severina: “E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, mesma morte severina:  / (...) (de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / até em gente não nascida”). Tem de ler e reler, compreender sem procurar um sentido de redação de escola. Melhor é sentir.


Região da enfiteuse, no Rio de Janeiro
O livro de Deonísio nos dá a dimensão mais profunda das palavras, desde as mais simples, como ‘outono’, até ‘laudêmio’, que tem origem no italiano e carrega em si a ‘enfiteuse’, que até hoje é cobrada no Rio pela orla do mar, e em Petrópolis, paga à Família Real! Fiquei tão indignado com essa cobrança feita na venda de um imóvel do espólio de meus pais que escrevi o artigo “Você sabe o que é enfiteuse, mas não sabe o que é extorsão?” (tem um link do lado direito, em cima), sobre o absurdo número de impostos pagos na venda de imóveis nas duas cidades (dizem que em Salvador é ainda pior). Na verdade, fiz uma brincadeira com o Mário de Andrade, em “Você sabe o francês ‘singe’ / Mas não sabe o que é guariba? / - Pois é macaco, seu mano / que só sabe o que é da estranja”. Obrigado, Deonísio, e salve a Língua Portuguesa!