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sábado, 17 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? II


O músico é um dos raros empregados que adquire e mantém seu próprio uniforme de gala (o de orquestra e similares) e sua ferramenta de trabalho. Investe no instrumento todas as suas economias, às vezes a poupança de uma vida. Tudo isso, diga-se de passagem, por salários geralmente medíocres e poucas vezes compensadores. Somente uns raros chegam ao topo fazendo fortuna, ao contrário do que levam a pensar os frequentadores dessa praia tão pequena e restrita do chamado sucesso. Na música popular, a piada é um certo “kit fama”: corrente de ouro, carro importado e loira na cama. São aqueles convidados da Ilha de Caras e dos programas de auditório, que adotam o chamado “jabaculê”, espécie de “pixuleco” para que suas músicas sejam executadas.
|O  'Ensaio', segundo Felini
Prosseguindo, a descrição deste personagem, seja ele regente, instrumentista, cantor ou compositor medíocre ou de reconhecidos méritos ou ainda, quem sabe, genial, só poderia ser complementada pelo pitoresco, o exótico, o absurdo ou o simplesmente ridículo. Existe retrato mais cruel de uma categoria profissional do que o burlesco e surreal que o do cineasta Federico Felini criou em seu filme Ensaio de Orquestra? Nele, cada instrumentista, exaltando suas próprias qualidades e a superioridade de seu instrumento, desnuda suas neuroses mais íntimas. No final das contas, como resultado de um embate que vem de séculos, no filme os músicos da orquestra acharam por bem substituir o maestro por um enorme metrônomo para marcar o tempo.
Qualquer um que tenha trabalhado em uma orquestra ou conheça bem a área deve saber que quem inventou de colocar dezenas de músicos juntos, além de inovador, perpetrou uma absoluta loucura. É muito artista junto! É tão estressante, nas grandes orquestras, viver aquilo diariamente! Bem brasileiramente, alguém defenderia uma espécie de aposentadoria especial para a categoria.
O psiquiatra britânico Oliver James empreendeu uma pesquisa que sustenta a tese de que toda obra de arte resulta de algum tipo de instabilidade mental. Os resultados do trabalho foram exibidos pela BBC de Londres em um especial que versava sobre o tipo de pessoa que se dedica à criação artística – o indivíduo exótico, desajustado, melancólico e não raro depressivo. Retrato mais contundente dessa faceta do artista está no livro Darkness Visible (no Brasil, Perto das Trevas), do estadunidense William Styron, autor também de A Escolha de Sofia.
Styron expõe ali sua própria experiência, uma relação promíscua na linha tênue entre a criação e a psicopatia. Não surpreende ver que os artistas mais propensos ao desequilíbrio são – talvez mais do que outros – pintores, compositores, músicos e escritores, sendo os últimos, à sua imagem e semelhança, o objeto maior do livro, relato de seu calvário pessoal. Já o músico que o público vê encarna-se de corpo e alma em uma performance que começa e termina a cada momento, a cada fração de segundo. É um trabalho, em grupo ou não, solitário, suado, frequentemente neurotizante e muito pouco compreendido. É uma missão e uma espécie de doença.
Um outro psiquiatra, Táki Cordás, do Hospital das Clínicas de São Paulo, concorda em parte com as conclusões de James. Ele observa, indo além, que, ultrapassados certos limites para a melancolia que antes fertilizava, ela passa a comprometer o processo criativo. Infelizmente, a divulgação pública desse perfil contribui para o charme gauche que costuma envolver certos desvios dos padrões sociais - às vezes, apenas oscilações de comportamento bem da natureza do artista. Cordás observa que, apesar de alguns serem recorrentemente melancólicos, isolados e mesmo depressivos, artistas produzem melhor quando libertos de suas crises, o que leva a crer que aqueles estados anteriores são meros acidentes de percurso – mas também contribuem, contraditoriamente, como férteis à gestação criativa.
Com essas teorias, é natural rever incontáveis causos sobre músicos. Qualquer um que tenha convivido com um deles pode, com certeza, lembrar-se de inúmeras estórias, seja sobre os músicos mais simples, daqueles que animam as modestas churrascarias da Zona Leste paulistana ou dos subúrbios cariocas. Exceções são os “megastars” da música pop internacional - os que pedem suíte presidencial pintada de azul, caixas de água Pérrier e belos champanhes Moet & Chandon de série especial. Fora aqueles que, como Michael Jackson, tinham entre suas exigências trenzinhos de ferro e jogos de Pinball, fora hospedagem para seus cães Rottweiler nas acomodações hoteleiras das suas excursões.
Liberace, deslumbrante
É característica frequente no músico o exotismo. O troféu do suprassumo do gênero, superando em muito qualquer limite do kitsch, do ridículo e da cafonália, vai para o pianista norte-americano Liberace, conhecido pelo seu toque inconfundível, rebuscado de rococós de mau gosto e pleno de floreios inúteis, entre o pinguim de geladeira e o candelabro de plástico no piano. Liberace tornou-se famoso por suas excentricidades: piano de acrílico transparente, lustres de ouro, blusas de seda com mangas bufantes, perucas, um monte de pulseiras, colares, anéis e muita maquiagem. Poderosa.
Jackson em sua Disney particular
Na esteira do pianista Liberace, seu conterrâneo Michael Jackson (1958-2009), sempre foi um tanto apegado ao exótico. Eram públicos os esforços do cantor para adquirir tez branca, nariz de manequim e voz andrógina. Sua Disneyland particular era frequentada por nove entre dez estrelas do show bizz. (Continua)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS?


O estigma de artista de vida romântica, no amplo sentido, sempre perseguiu o músico, independentemente da época em que tenha vivido. A imagem estereotipada do compositor ou instrumentista solitário, maluco e quase tísico povoa a imaginação geral. Talvez por causa da loucura do alemão Robert Schumann (séc. 19), da surdez, boemia e demência final de Beethoven (1770-1827), a morte precoce e abandonada do gênio Mozart (séc. 18) ou a cólera de Tchaikovsky (séc. 19), que para completar a sina era gay, e no regime da Rússia czarista! Tristes finais também tiveram Bach, Händel e Schütz, que morreram cegos, Chopin e Paganini, tuberculosos, e Mussorgsky, que “nadava de braçadas” na bebida.
Paganini, aliás, além de bêbado contumaz era um jogador compulsivo. No começo da carreira chegou a deixar seu violino em uma casa de penhores para alugar um fraque, mas foi jogar e, claro, perdeu tudo o que pegara emprestado. Pediu a um amigo um violino e um traje de gala, mas com o dinheiro do cachê do recital voltou à jogatina e perdeu tudo.
Essas imagens não diferem muito daquelas do nosso Noel Rosa (1910-1937), 350 músicas, morto de tuberculose aos 26 anos. Protagonista, aliás, além de extenso anedotário, de um riquíssimo embate musical com o sambista Geraldo Pereira, assassinado com um soco na barriga em um bar. Passam, também, pela imortal Billie Holiday, rainha do blues viciada em heroína, bem como Janis Joplin, e Jimi Hendrix, o guitarrista-mito do rock que solava seu instrumento até com a língua e volta e meia ateava fogo na guitarra, sobre o palco, sem falar na recente Amy Winehouse. Todos vítimas, de um jeito ou de outro, de overdose de entorpecentes (ou sufocado pelo próprio vômito, como Hendrix, após os homéricos excessos).
Somem-se ainda o saxofonista John Coltrane, os nossos “maluco beleza”, Raul Seixas, e a divina “Pimentinha”, Elis Regina. Steve Tyler, da banda Aerosmith, contou que a droga era estimulada pelos próprios empresários, em busca de maior impacto de seus artistas em cena. Disse também que, enquanto os músicos ficavam na cama, entorpecidos pelos excessos, eram roubados pelos próprios agentes. Sem falar na praga dos novos tempos, a Aids, que levou Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo, do grupo Legião Urbana.
O baixista Sid Vicious, do grupo inglês de “punk-rock” Sex Pistols, morreu quase adolescente, aos 21 anos. Provocador, volta e meia apanhava de alguém mais exaltado, como aconteceu nos EUA, quando teve a cara quebrada por uma mulher ensandecida – mas prosseguiu o show com sangue escorrendo pelo nariz. Seu vocalista bradava ao microfone “é um circo vivo!” Certo dia, ao acordar e sem se lembrar da noite anterior, Sid deparou-se com o corpo de sua companheira Nancy coberto de sangue. Como se não bastasse, ele foi encontrado morto por overdose.
Aeroporto de Heathrow
A mãe de Sid mandou cremar-lhe o corpo, mas escorregou e caiu com a caixa em que levava as cinzas num dos saguões do aeroporto de Heathrow, em Londres, deixando escorrer parte dos restos mortais pelas frestas do sistema de calefação. Sid foi “colega de escola” de Kurt Cobain, do grupo Nirvana – que tinha mais de calvário do que da libertação budista do título do conjunto: suicidou-se com um tiro na cabeça aos 27 anos.
Jacqueline Du Pré
Ilustrando o retrato do músico sofrido, a violoncelista Jacqueline Du Pré foi acometida de esclerose múltipla, doença degenerativa que a levou à morte em 1987, no esplendor de uma carreira sem precedentes. O célebre violinista israelense Itzhak Perlman, quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas o destino o fez vítima da poliomielite, teve de passar às muletas e cadeira de rodas, decidindo-se pelo violino, do qual é um dos gigantes vivos. O guapo cantor Julio Iglesias queria ser goleiro do Real Madrid, até que aos vinte anos sofreu um acidente de automóvel e quase perdeu os movimentos. Pois foi no hospital que ele começou a cantar para outros doentes e enfermeiras, acompanhado de seu violão. Já deve ter batido a casa dos 250 milhões de discos.
Nasceram cegos Stevie Wonder, Ray Charles e Andrea Bocelli. Um inovador da harmonia jazzística, Django Reinhardt, com defeitos congênitos na mão, criou seu sistema pessoal nos acordes da guitarra. (Todos esses, ressalto, souberam explorar suas virtudes e até mesmo seus defeitos pela melhor música).
Uma vez popularizada essa pecha de loucos e judiados dos músicos, pesquisadores passaram olhá-la com atenção. No 1° Encontro Latino-americano de Trombones, em 1999, alguns deses schollars estiveram presentes, e ao menos duas palestras versaram sobre o tema: O Trombone e suas Conexões com a Psiquiatria, com o Dr. Sérgio F. Rocha, e As Síndromes do Trombone, pela Dra. Dorotéa Malheiros.
Aliada a essa fama de boêmios, doentes e marginalizados frequentemente emprestada aos músicos de forma genérica (são poucos entre incontáveis), existe uma outra faceta do carma, que é ter de passar inúmeras horas do dia sozinho, praticando ou escrevendo, dedicando-se com afinco ao aperfeiçoamento técnico, praticando exaustivamente para que as notas que escrever ou extrair de seus instrumentos afaguem o coração de seus ouvintes. À parte um tipo menos louvável de estrela sem maiores méritos que, frustrado, vê as pessoas na plateia mais interessadas no ‘mauricinho’ ou ‘patricinha’ ao lado nos shows. 
[Alerta: este é um retrato de tristes exceções, em meio a incontáveis músicos, 'modelos' que não devem ser seguidos: a demência é triste, e álcool e drogas atrapalham os estudos sérios e a execução. Exemplos mesmo, neste texto, são os que servem de estímulo aos que possuem defeitos físicos ou se veem privados de algum sentido ou movimentos para se realizarem como músicos na vida!]
(Continua)



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – FINAL

Comício Diretas Já
Entre os músicos, a coerência política é qualidade nem sempre presente em suas relações com o Poder Público (mais precisamente, os nobres ou governantes de plantão). Nisso alguns de nós são favorecidos, é claro, pela reconhecida tendência do povo brasileiro à rápida perda de memória - e não é preciso cairmos em tentação ou conclusões radicais e de gosto duvidoso, como professava o imortal teatrólogo Nélson Rodrigues, que dizia que a massa é ‘ignara’, é burra. Exemplo desse tipo de camaleão político é certo regente mediano que conseguia se locomover como papagaio dos piratas entre as multidões que se comprimiam nos comícios das Diretas Já (movimento que, em tempos recentes mas também já um pouco esquecidos, brigava-se pela volta do sufrágio direto para presidente, acreditem os jovens se quiserem). Também havia colocado sua arte nas mani­festações pela legalização dos partidos de esquerda, até o PCdoB, então proscritos, com a mesma desenvoltura com que, em passado nem tão remoto, animava com seus corais as festas comemorativas do golpe de 64 (daqueles mes­mos militares responsáveis pela extinção do direito de voto e de organizações e partidos de esquerda que ele depois defenderia com pátrio fervor). Gênero volátil, que sabe reger conforme a música.
O grande Lamartine Babo (radiobatuta)
Há casos de espertos apolíticos, distantes de rixas, como o composi­tor de marchas carnavalescas Lamartine Babo (1904­-1963), torcedor do América Futebol Clube do Rio de Janeiro, time para o qual compôs o hino oficial ("pois a torcida americana é assim..."). Sob pressão dos rivais, para que não o acusassem de proteger o próprio time com seu farto talento musical, Lamartine escreveu, entre outros, o hino do Flamengo ("Flamengo, Flamengo, sua glória é lutar..."), do Botafogo ("Botafogo, Botafogo, campeão de 1910...") e do Fluminense ("Sou tricolor de coração..."). Detalhe históri­co: a letra de Lamartine para o hino do Botafogo teve de ser mudada para "campeão de mil novecentos e sete", em virtude de descoberta arqueológica que bons tempos depois apontou aquele ano como o do primeiro campeonato. Não é gozação, mas soou esquisito.
Cidade de Deus, em Osasco, SP. Vista aérea ainda em fase de construção
Por fim, não se pode confundir ecletismo com interesse: lá pelos idos de 1982/83, a cúpula do Bradesco mantinha, na Cidade de Deus, uma espécie de laboratório para lavagem cerebral de famílias de bancários em Osasco, um gueto pródigo em colaboração com organizações pararreligiosas e de laços estreitos com o regime militar. Certa vez, aconteceu ali um concerto fa­buloso. Revezavam-se como narradores o comediante Lúcio Mauro e a atriz Elizabeth Savalla, malvistos pelos artistas que não comungavam do regime de exceção, sobre um palanque erguido em um parque tomado por um oceano de crianças ‘espontaneamente’ arrastadas para aquela grande jornada cívica. A profusão de bandeirinhas do Brasil dificultava enxergar até mesmo o pouco que ainda havia de grama sobre o chão. Parecia coisa do Estado Novo, ou de algum daqueles famosos regimes europeus da primeira metade do século 20.
Entre arroubos cívicos, apologias ao poder instituído (e não constituído) e outras manifestações, uma sinfônica do interior apresentou-se sob a batuta de seu incansável regente, em uma de suas intermináveis exibições, tão longas que quase wagnerianas. Depois daquele inusitado espetáculo cívico, como peixes fora d'água, os músicos da orquestra saborearam o tradicional lanche de água mineral com tangerina, sem saber o que foram fazer ali mas engolindo com apatia o azedume da fruta e o amargor da festa. Obrigações de funcionário público.
Sid Vicious em show
Assim como houve regentes de canhestras ligações políticas no passado, houve quem conseguisse apaga-las em prol de um futuro mais próspero e menos comprometedor. Da mesma forma, tanto quanto o punk Sic Vicious, que se automutilava nos palcos para deleite da plateia, há os que sensibilizam fãs exibindo sua "mutilação" (verdadeira ou não) via crucis, exposição pessoal em prol de dividendos. Mas já o auto-flagelo do punk Sid Vicious foi real e um outro viés, uma nova abordagem da compaixão alheia. 


A qualidade musical passa a não render tanto, mas assume contornos de uma espécie de São Sebastião, mártir francês do terceiro século  perseguido por Diocleciano, imperador de Roma. Amarrado a um tronco, Sebastião foi flechado várias vezes, tendo seu rosto sido retratado com expressões entre fé e sofrimento, nas antigas ilustrações. Entre essas figuras do punk-rock e as dos clássicos que expõem sua dor há quase que um reverso do espelho, ou seja, o espectador vê o que deseja ver, seja o sofrimento real ou o virtual.
André Rieu
Regente é quem está regendo, lembro pela enésima vez, e maestro é o mestre. Um que faz sucesso com suas habilidades de showman sem se meter em política e pouco sabendo reger é o holandês André Rieu. Adepto da chamada easy listening, só rege valsas de Strauss como O Danúbio Azul e música popular romântica e melosa. Como violinista, não passaria em uma prova para a OSESP. No entanto, respeitando o gosto de cada um, tem grande espaço na mídia e atrai multidões mesmo cobrando ingressos caríssimos. Seu passado parece ser limpo, sem ligações políticas duvidosas, a não ser as naturais de quando precisa “vender seu peixe”, parece que dentro da legalidade.

Narciso. Uma obra-prima de Caravaggio
Creio apenas que ele se excede ao apresentar crianças-prodígio, ‘candidatas a Mozart’, o que também arrebata plateias – muito embora os infantes sejam comparáveis, para dizer o máximo, a pencas de crianças talentosas de nossas escolas de música do Brasil. Com esses passes, emoldura seu espelho. Pois Narciso, como se sabe, acha feio o que não é espelho.

sábado, 27 de janeiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – IV

Memorial. E sua "mão"
(Cont...) Maravilha arquitetônica parece ser, também, o Memorial da América Latina. Situado na Barra Funda, em São Paulo, o enorme complexo de formas arredondadas foi projetado por Niemeyer e custou uma fortuna em dólares aos cofres estaduais. Entrando nos aspectos musicais propriamente ditos do Memorial, continua a despertar espanto o fato de que (a exemplo do Centro Cultural e outros equívocos arquitetônicos) para sua construção governantes ou arquitetos parece terem se esquecido de consultar um técnico com conhecimentos de física acústica e elementos musicais ou, na falta desses, um músico ou alguém provi­do de certo bom senso. Cascatas de dinheiro público foram consumidas nessas obras, inaugurando-se espa­lhafatosamente salas de espetáculo de características acústicas simplesmente medonhas.


Diz o amigo jornalista Danilo Leite Fernandes que a Filarmônica de Israel se apresentou no Teatro Nacional de Brasília no início dos anos 70. O grande regente Zubin Mehta ficou impressionado com a péssima qualidade da acústica do teatro. Questionou o diretor, que lhe disse: "Reclama com o Niemeyer, que vai estar na plateia hoje à noite". Após o concerto, Mehta foi apresentado ao “famosão” Niemeyer e, humildemente, perguntou-lhe: "Quais estudos acústicos foram feitos durante a confecção do projeto do teatro?". Niemeyer: "Nenhum. Acústica é bobagem, não acredito nisso. O que me interessa é a beleza estética". Mehta mudou de assunto.
A linda "Capela" da Pampulha
Nada contra Niemeyer, de quem devemos nos orgulhar por muitas obras. Para mim, a mais linda é a Capela da Pampulha (oficialmente, Capela Curial São Francisco de Assis, de 1959), com obras de Portinari, um museu de arte em si, da fachada à via crucis interna. Curioso que Niemeyer, comunista e ateu convicto, tenha duas igrejas entre suas obras de grande criador: essa linda da Pampulha e a imponente Catedral de Brasília.

Como não deveria deixar de ser, o palco do Memorial - que, supõe-se, foi feito entre outras atividades para abrigar orquestras, shows e balés - não é exceção à regra. Seria excelente para gravações de programas de auditório de TV. É que o palco fica no meio de duas enormes alas de cadeiras, os artistas exatamente entre elas.
Na primeira vez que pisou no palco do Memorial, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado (OSESP), o Maestro Eleazar de Carvalho brincou não saber se deveria reger de frente, dando as costas para a metade direita do público ou para a esquerda; terminou por colocar-se diagonalmente a ambas as seções da plateia, prejudicando o público. Essa, uma revolução impossível: já havia demorado alguns séculos para que algum tipo de disposição da orquestra sobre o palco e certos princípios acústicos fos­sem consagrados universalmente. (Após inúmeras experiências, recai-se em algumas variações do modelo antigo da orquestra clássico-romântica na construção de espaços modernos).
Boston Symphony Hall
Assim foram gestados o Carnegie Hall de NY e o Boston Symphony Hall (aliás, o primeiro pensado por meio de física acústica, baseado nas teorias de um gênio chamado Wallace). No passado, já houve a mesma preocupação  com o Opéra de Paris e o Gewandhaus, de Leipzig... Aqui mesmo no Brasil, em Manaus, no apogeu do Ciclo da Borracha (1900-1920) e em pleno Amazonas, foi erguido um belo teatro para abrigar as grandes compa­nhias europeias de ópera no roteiro de suas passagens pelas Américas. Empresários e governantes, assim como em sua maioria engenheiros e arquitetos, no passado orgulhavam-se de sua sensibilidade de maneira especial.
Teatro Santa Isabel, de Recife
O Teatro Santa Isabel de Recife, que foi concebido como uma miniatura do Opéra de Paris, teve seu telhado cons­truído de forma a aliviar para o público o calor medonho que faz na cidade - para tanto, foram feitas algumas aber­turas laterais na parte superior, de forma a permitir a pas­sagem de correntes de ar. O problema é que junto com a brisa fresca entravam por ali toda sorte de “visitantes”, de andorinhas e pombos a morcegos. Em 1931, em sua única vinda ao Brasil, o venerável violinista Jasha Heifetz apresentava-se no Santa Isabel quando foi surpreendido pelo voo rasante de um daqueles quirópteros, que quase raspou-lhe rosto. Pálido e sem inspiração, parou de tocar e exigiu que devolvessem os ingressos ao público. A direção do teatro, em pânico, conseguiu convencê-lo de que o prédio seria evacuado, as luzes apagadas e os eventuais morcegos recolhidos, garantindo que depois de algum tempo não haveria mais um daqueles animais sequer. Após uma hora Heifetz voltou, executou com certa esperada frieza o restante do programa e, traumati­zado, nunca mais voltou ao Brasil.
Já o violinista Lambert Ribeiro, antigo catedrático da Escola Nacional de Música e autor de diversos métodos, aproveitou a deixa do acontecido com Heifetz, e à primeira investida do morcego do Santa Isabel - quem sabe os bichos seriam  amantes  da melhor audição musical? – reagiu como Heifetz sem sê-lo: parou de tocar e gritou para os bastidores: "ou eu ou o morcego!". A plateia, rapidamente: "o morcego, o morcego!"
Posição tradicional de uma Sinfônica
Voltando ao auditório do Memorial, uma vez resolvido no tapa o problema da colocação da orquestra, restava ainda solucionar um outro maior, o de natureza acústica: em primeiro lugar, conjuntos musicais são organizados em função das características acústicas de seus Instrumentos. Em segundo, existe uma disposição tradicional dos naipes sobre o palco que leva em consideração princípios elementares, e ela vem sendo aprimorada através dos séculos, consolidando-se no romantismo e pouco mudando de teatro para teatro.

Uma trompa e sua campana voltada para trás
Por causa desses enganos, no Memorial o som das trompas (que, pela sua construção, é projetado para trás, uma vez que sua campana fica em posição invertida) parece demorar uma eternidade para chegar ao público. Instrumentos de som grave (bumbo, tuba, contrabaixos, trombones), que são geralmente distribuídos entre laterais e fundos para melhor se aproveitarem do espelho acústico das paredes dos auditórios, no Memorial se perdem indefinidamente, sufocados pelos agudos dos oboés, violinos, flautas e clarinetas - que parecem escapar, como fogos-fátuos, pelo vácuo do enorme pé-direito da sala. (Cont.)

sábado, 20 de janeiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – III

O fabuloso e moderno Meistersingerhalle
Organizados ao extremo, mesmo em atividades que, como a música, levam frequentemente a certas situações exóticas, no século 17 os alemães resolveram classificar, seus cantores em categorias. O aluno entrava para a academia como Schüler, passava a Schülfreund depois de aprender as regras do Tablatur. Depois, o posto de Sönger, chegando a Dichter e, finalmente, Meister. A Associação de Nuremberg tinha o Singermeister, depois Singermeistermeister e, finalmente, último posto da carreira, Singermeistermeistermeister. Parece muito, mas ainda perde para algumas palavras mais compridas: Donaudampschiffartselektrizitaetenauptbetriebs-werkbauunterbeamtengesellschaft – Clube dos Oficiais Eletricistas de Vapor do Danúbio. Os órgãos musicais são do Poder Público, mas não interferem na arte. Apenas a apreciam desde sempre.
"Lá vem o seu Lacerda, comandando o batalhão"
Em política, no Brasil, fala-se em canto da sereia, que tal campanha está sendo orquestrada por fulano, que o Congresso, em coro, aprovou as medidas, que o minis­tério está desafinado, que a oposição fica repetindo o bordão, que os sindi­catos vão botar a boca no trombone, que o Supremo está em compasso de espera, que o político passa a vida na flauta, que a Câmara está cheia de pianistas, que o governo fica batendo na mesma tecla e até que o adversário enfiou a viola no saco! E que dizer da banda de música da UDN, capitaneada pelo incansável Carlos Lacerda, do pé de valsa Juscelino e do seres­teiro João Goulart? A política interfere na música se quer valsa, samba ou funk.
Tony Blair e banda
Se governantes e políticos, pessoalmente, certas vezes gostam de se mostrar amantes da música. Bill Clinton se arrisca no sax alto, Tony Blair na guitarra e Fernando Henrique Cardoso, cuja frustração foi não ter seguido a carreira de músi­co - o mesmo, infelizmente, não se pode dizer da maioria dos assessores e comandados. Em um passado recente, sem esquecer precursores como Dom Pedro, Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen sempre foram mais do que meros aprecia­dores: ambos cantores bissextos e o segundo arti­culista com incursões na crítica de ópera (terá esse gênero musical conexões ocultas com as teorias econômicas mais conservadoras?).
Maluf, versátil em seu teclado (programa Luciana by Night)
Algumas décadas atrás, Paulo Maluf promoveu, bem ao seu estilo de marketing, uma apresentação com mais cinco pianistas de primeira grandeza (e ele, claro), à frente Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo. Luiza Erundina regeu corais no Nordeste e o Itamaraty nos deu o genial poeta e com­positor popular temporão Vinícius de Moraes. Pelo desconhecimento da matéria, entretanto, a maior parte dos governantes, políticos, assessores e pareceristas costumam prestar-se a severas confusões.
Edda Fiore (de vermelho), Walter Lourenção, Ciça Camargo, eu e Marilena
Durante a gestão da polêmica filósofa e profes­sora Marilena Chaui na Secretaria Municipal de Cultura do governo Luiza Erundina, foi inaugurado em 1992 um novo prédio da Escola Municipal de Música, trans­ferida de uma antiga casa de cômodos que eu chamava ‘pombal’, na av. Lins de Vasconcelos, para um vistoso casarão na rua Vergueiro, em frente ao Centro Cultural. Solicitação pessoal minha, fiz questão, como diretor, de uma placa com os dizeres "Escola Municipal de Música". Passados alguns entraves buro­cráticos, houve a promessa de que a placa seria afixa­da no dia da inauguração. Na véspera, fomos avisados de que não haveria placa, mas uma faixa provisória.
Pouco antes da inauguração, chegam alguns funcionários - que começaram a desenrolar, à minha frente e de Marilena, o esperado banner: "Escola Municipal... (e, para surpresa de todos) de Cultura". A faixa foi joga­da fora, a Escola inaugurada sem placa, e a Secretária de Cultura ficou por alguns minutos sem fala. Quando foi embora, a filósofa olhou para a faixa, que ficara enrolada sobre a mesa, balançou a cabeça e olhou fixa­mente para mim (fazendo mentalmente, era provável, alguma digressão sobre a filosofia do pessimismo). Foi quando me veio à cabeça um lema da adolescência, que deixei escapar na despedida: "O escoteiro sorri e assobia nas dificuldades", mandamento do escotismo.
Ainda com Marilena secretária, foi programado um evento no Centro Cultural São Paulo (aquele elefante branco que acusticamente mais se prestaria a um labo­ratório da música de Charles Ives), assentado sobre um terreno que pertencera à família do compositor Alexandre Levy (1864-1892), junto à Av. 23 de Maio. Ali iria se apresentar o acordeonista Osvaldinho, um show chamado Painel Musical do Brasil. Como o músico, para tal, deveria assinar um con­trato de prestação de serviços com a Prefeitura, docu­mentação competente foi encaminhada à apreciação das assessorias.
Centro Cultural São Paulo. Aclimação, SP. 
Nada mais natural, tratava-se de um caso de notória especialização de natureza artística. A lei dispensa artistas de licitações, de complicados processos e é muito clara (alguém já pensou fazer uma concorrência para ver quem é o melhor Milton Nascimento?). Aquela contratação, entretanto, acabou obtendo parecer contrário do assessor jurídico de plantão, que julgou que confecção de painéis (o show era chamado Painel Musical do Brasil!) era trabalho de carpintaria. Especialidade que, data venia, deveria sim ser objeto de licitação.

A Babel de Pieter Bruegel, "o Velho" (Bruxelas, 1525/30-1569)
O próprio Centro Cultural é, em si, uma piada musical. Construção enorme, constitui verdadeiro desafio à concepção arquitetônica funcional, à lógica e ao mínimo bom senso: seus três teatros poderiam ser apenas um já que, não tendo cobertura interna e conjugando com os mesmos corredores, é impossível que neles se realizem eventos simultaneamente. Mais de um evento simultâneo não vira música aleatória, mas uma Babel sonora. (Cont.)

sábado, 13 de janeiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – II

(Cont.) Certo dia estávamos em plena aula de Folclore, quando irrompeu pela porta o diretor-general. Como falávamos sobre certo tipo de flauta que indígenas de algumas tribos confeccionam com ossos humanos, o interventor não resistiu e começou a fazer comparações entre as primitivas flautas dos índios, homens que não escondia considerar inferiores, e aquelas transversais, feitas de ligas de prata com outros metais, utilizadas em nossas orquestras sinfônicas, manifestações artísticas “superiores”. Tentei, em vão, argumentar que não havia "arte superior" e "arte inferior", cada uma representa culturas e tradições diferentes.
Irritado, o general se retirou da sala, batendo a porta. Mas voltou, entreabriu-a e apontou o dedo em riste para mim: "...e você aí, cuidado, hein... cuidado para não virar flauta!" (referiu-se, com certeza, à matéria-prima humana utilizada na confecção daqueles instrumentos pelos nossos indígenas). Não muito tempo depois, início do desmoronamento do regime, o general Graça já estava felizmente reformado, exonera­do e sem graça, enquanto o outrora maldito prédio da UNE, na Praia do Flamengo, fora demolido para dar lugar a um indecente estacionamento, para bem sei lá de quê ou de quem.
Com poucas saudades dos velhos tempos em que militava, até mesmo a ex-atriz, ex-deputada e atriz novamente Bete Mendes, Secretária de Cultura do Estado de São Paulo na gestão Orestes Quércia, dava-se ao luxo de permitir certas práticas que em outros tempos ela mesma con­sideraria indecorosas, enquanto “revolucionária”: na espera para uma reunião, em seu gabinete, eu e os demais inte­grantes da Associação dos Músicos pudemos perceber um microfone cuidadosamente disposto sob o tampo da mesa, deixando-nos intrigados. Não se pode garantir a finalidade dos apetrechos. Talvez, por sermos músicos, alguém possa ter pensado que fôssemos cantar alguma peça a cappella, talvez alguma preciosidade musical a ser gravada sigilosamente. Mas se nada há a temer, nada há que se esconder.
O nome da Bete Mendes Bete Mendes cruzou meu caminho uma terceira vez (a primeira foi na peça Gota D’Água, de Chico Buarque e do saudoso Paulo Pontes, em 1975, no Rio de Janeiro na qual trabalhei: Bete fazia a inocente Alma, filha de Creonte e amor de Jasão). Por volta de 1990, já diretor da
Escola Municipal de Música de São Paulo, recebi a visita de uma senhora que tentava, a todo custo, ver seu filho como professor em uma das classes de Piano; o garoto seria dono, conforme a própria mãe repetia, de um talento invejável, a marca do gênio (francamente, não foram poucas as
vezes em que pais ou mães abusaram de adjetivação semelhante para qualificar as habilidades de seus filhos).
Ante minha negativa, como era de praxe (já pude receber a visita de um Secretário de Educação, com carro oficial, segurança e tudo!), a mãe de um pequeno gênio informou que conhecia a deputada Bete Mendes, se isso não ajudava. Diante de tamanha cara de pau eu menti que sim, mas que deveria ter o pedido por escrito. Poucos dias depois, recebi um documento, em papel timbrado da Câmara dos Deputados, que solicitava a inclusão do menino no quadro dos alunos da Escola. Guardo-o com carinho. Aquele ofício deu inúmeras voltas do primeiro ao último escalão da Prefeitura, junto com um memorando em que eu informava que "tem gente que ainda não entendeu nada"... Entre inúmeras dessas tentativas de jeitinho para favorecimento de conhecidos, tão peculiar no Brasil, cheguei a ser visitado por uma senhora interessada em espremer seu talentoso filho em uma vaga da escola, enquanto no estaciona­mento aguardava outra vez um autoridade, com direito a carro oficial e segu­ranças. Sem sucesso, é claro.
Digna de menção é uma verdadeira pérola de poesia. Uma velha senhora conhecida da então secretária do prefeito, insistia em empregar seu filho, Valnei (omito o sobrenome por cautela), como professor na Escola Municipal de Música (apesar de ele não saber quase nada e de nunca ter dado uma aula). Ante minhas escorregadelas pela tangente, enviou ao gabinete do alcaide um pequeno poema-oração, da lavra de seu talentoso filho e devidamente anexada ao processo, o qual passo a reproduzir literalmente logo abaixo (detalhe: apesar da “puxada”, o pedido de emprego não colou e nem o gabinete insistiu, era praxe apenas repassar o que chegava): “Maluf nosso que estás no auge / glorificado seja o teu nome / venha a nós o teu comando / seja eleita a tua pessoa / assim em São Paulo / como em Brasília / (...) e não nos deixeis morar embaixo da ponte / mas livrai-nos dos marajás / Amém”.
Reichstag, Berlim, de longa história
A ideia de disciplina trazida pelas orquestras deve, e muito, impressionar os profissionais da política: vários poderosos adorariam ver seus súditos curvados ante sua própria sensibilidade, incógnitos e, massa per­feita, organizados como no Reichstag? Melhor ainda, su­bordinados às oscilações de sua vaidade e seu próprio temperamento apaixonado e onipotente?

Mas a aparente disciplina das orquestras, apesar de impressionar os que assistem atentos a um bom con­certo, não costuma ser tão canônica quanto parece. Nos bastidores, a situação chega frequentemente ao cômico e não raro à baderna - o que não é exclusividade dos músicos de hoje: já no século XVII, os músicos de Nuremberg receberam ordem de ensaiar na própria Prefeitura, sob a vigilância de um subprefeito que entendesse de música, para que os instrumentistas não burlassem seu dever de funcionários públicos. (Continua)